sábado, 27 de fevereiro de 2010

O reencantamento da História

A sobrevivência do sagrado nas narrativas pós-modernas

George Orwell conta que, quando esteve no front da guerra civil espanhola - lugar em que um ser humano não dá nem um palito de fósforo usado para seu melhor amigo - presenciou soldados que davam metade de sua comida para ouvir uma estória. Aliás, muitos já disseram que a lista das necessidades humanas tem apenas dois itens: pão (a comida nutre o corpo) e circo (a narrativa alimenta a alma). Mas será que a necessidade de diversão é tão importante assim? Qual será a importância das histórias para o equilíbrio psicológico? E será que todas as histórias têm o mesmo valor?

A Narratologia é o estudo das narrativas de ficção e não-ficção (como a crônica histórica e a reportagem jornalística). Porém, a grande maioria de estudiosos de narrativas são estruturalistas como Vladimir Propp (1928), A.J. Greimas (1966), Roland Barthes (2002) e Gérard Genette (1972). De modo que a narratologia se aproxima bastante da análise discursiva e da semiótica e como tal, tem por objetivo a construção de uma gramática narrativa formada por paradigmas, estruturas e repetições universais entre as diferentes estórias analisadas, desconsiderando os diferentes contextos históricos e culturais em que foram produzidas.

O resultado dessa predominância estruturalista nos estudos narrativos levou a criação de fórmulas muito rígidas. Propp (1928), por exemplo, identificou 7 classes de personagens (“agentes”), 6 estágios de evolução da narrativa e 31 funções narrativas das situações dramáticas. A linha narrativa que ele traça é fundamentalmente uma só para todos os contos.

Outra contribuição importante para narratologia é a de Joseph Campbell, o conhecido mitólogo que levou os postulados de Jung aos campos da arqueologia, antropologia e história das religiões, elaborando um modelo universal, com os livros O Herói de Mil Faces (1995), O Poder do Mito (1990) e o conceito de monomito (adaptado de James Joyce), segundo o qual todos os grandes mitos-fundadores das culturas humanas seriam, em última análise, uma narrativa universal. Campbell, que trabalhava com mitologia comparada, delimitou os passos e percursos possíveis do herói arquetípico, que viveria um "ciclo de iniciação" em sua "jornada" (trajetória do anonimato à consagração). Campbell não só influenciou outros pensadores, como também artistas, cineastas como George Lucas (Star Wars foi concebido a partir da jornada do herói) e escritores como Christopher Vogler (roteirista de Hollywood e executivo da indústria cinematográfica que usou as teorias de Campbell para criar um memorando para os estúdios Disney (1997).

Ao invés de compreender e explicar o efeito espiritual das narrativas sobre nossas vidas, tanto o estruturalismo como Campbell apenas padronizaram as estórias, gerando modelos para a produção de enlatados audiovisuais pela indústria cultural. E o pior: esses modelos são incapazes de explicar nem as estórias tradicionais de outras culturas, nem algumas das novas narrativas contemporâneas produzidas pelas própria mídia, que subvertem todos os parâmetros dos narratólogos. Algumas narrativas atuais misturam gêneros (são, ao mesmo tempo, de amor, de aventura, de suspense, etc); combinando modos narrativos (são simultaneamente épicas, líricas e dramáticas); sobrepondo focos narrativos; e, principalmente, encadeando e alternando os diferentes tempos narrativos (cronológico, histórico, psicológico e discursivo). Isto inspirou uma nova geração de estudos.

A 11ª conferência anual do Common Boundary - uma ONG norte-americana, voltada para o estudo e divulgação de experiências sobre a relação entre psicoterapia, espiritualidade e criatividade – foi inteiramente dedicada ao tema das histórias sagradas. Participaram pesquisadores de diferentes áreas e especialidades: Edith Sullwold; Gioia Timpanelli; Robert Bly; Allan B. Chinen; Richard Lewis; Nancy J. Napier; Shaun McNiff; Meinrad Craighead; Walter Wink; James P. Carse; John McDargh; Matthew Fox; Richard Katz; Al Gore; Clarissa Pinkola Estes; Maya Angelou.

Entre as abordagens sobre mitologias específicas, destaco três: David Peat, que relacionou a atual teoria do caos e cosmovisão dos nativos norte-americanos; John L. Johnson, que falou sobre a reabilitação de dependentes de drogas por meio da narração de histórias de origens africanas; e John Daido Loori, que apresentou um trabalho sobre o ‘Zen e seus koans: instrumentos de autoquestionamento’.

Com Peat, aprendemos que a mente (coletiva ou individual) funciona como um mapa formado por narrativas, através do qual temos acesso aos territórios exteriores do cosmo. Com Johnson, descobrimos que o dependente químico é uma história de fracasso social que pode ser recontada. Com Loori, conhecemos os koans, mini-estórias, geralmente absurdas e paradoxais, cujo objetivo é provocar um insight, uma mudança no estado de percepção do ouvinte (e não de dar conselhos ou ensinamentos morais através de parábolas ou alegorias).

Porém, o centro dos debates foi sobre o caráter sagrado das narrativas. Neste sentido, é possível precisar três posições distintas não conflitantes: os que têm nostalgia das estórias tradicionais; os que consideram as histórias narrativas cognitivas para constituição de biografias; e os que entendem as narrativas sagradas e profanas como partes de um jogo complexo de identidade.

Sam Keen, por exemplo, integra o grupo eco-tradicionalista. “Para nos libertar do mito destrutivo do progresso, temos que redescobrir nossas mitologias familiares e histórias pessoais”. (KEEN, 2002, 43) No cenário tradicional, acreditávamos em um mito que orientava nossa vida; no cenário moderno, a história tomou o lugar das estórias míticas; e na pós-modernidade, não há nem um único mito nem uma única história formadora de nossa identidade, mas somos bombardeados por várias histórias de outros locais . Para Keen, essa multiplicidade de narrativas globais gera uma cultura descontínua e fragmentada, com rupturas de espaço/tempo, que afasta os homens de si mesmos e da natureza.

Mary Catherine Bateson também considera a cultura atual descontínua, mas acredita que há uma continuidade espiritual perpassando as diferentes descontinuidades pelas quais passamos em nossa história de uma vida. Por isso, ela enfatiza: o importante é viver a vida como processo criativo. Sermos os autores de nossas histórias de vida, ser os artistas e a própria obra de arte em evolução. As estórias, neste contexto, são vistas como encontros entre pessoas e imagens, como uma forma de arte-terapia. Bateson tem um interesse especial pelas narrativas de conversão.

E, finalmente, existem os que acreditam que as “narrativas sagradas são constituídas de símbolos e verdades profundas sobre os mistérios da vida.” Vivemos em um universo formado por histórias – histórias da família, da escola e da mídia. As histórias nos informam, distraem, ensinam. Mas, nem todas são sagradas. Há também histórias tolas, obscenas e até imorais. As sagradas são aquelas que nos diz quem somos nós e qual nossa relação como o cosmos, que “nos transformam e aproximam dos outros” (SIMPKINSON, 2002, 09).

Mas, o que faz uma história sagrada é sua forma e não seu conteúdo. O que importa é como se conta a história e não sobre o que ela trata. Há histórias religiosas que não são sagradas. Reconhece-se uma história sagrada pelos ‘efeitos de sentido’ que ela desencadeia no receptor. As histórias profanas dizem quem você é, enquanto as histórias sagradas dizem o que você não é.

Não mostra teu perfil,
Esquece tua visão lateral –
Tudo isso é exterior.
Procura tua outra metade
Que sempre segue a teu lado
E tende a ser o que não és.
(Antonio Machado in BLY, 2002, 130)

As narrativas sagradas são aquelas que são capazes de produzir, no público e no próprio narrador, uma maior compreensão de seus próprios sentimentos e, com isso, uma ampliação e regeneração da consciência. Já as narrativas profanas podem ser subdividas em dois tipos ideais: o entretenimento puro e a 'arte mágica utilitária’ (uma estória heróico-patriótica evoca emoções cívicas, por exemplo). Assim, há narrativas que estão a serviço da elevação da consciência (e da compreensão do outro) enquanto outras que apenas reforçam ‘a pertença’ (o sentimento de pertencimento a uma identidade territorial). Porém, nos tempos da globalização, essa distinção não pode ser seguida ao pé da letra, com as estórias industrializadas através da mídia.

Nossa cultura está repleta de histórias. Cada propaganda que lemos ou vemos é realmente uma história – conta de modo inteligente, artístico e dispendioso. O consumismo é a história principal de nossa civilização. Ele alimenta nossos apetites não saciados; nutre-se do fato de não estarmos sendo supridos espiritualmente, de existir dentro de nós um vazio que não pode ser preenchido, não importa a quantidade bens ou guloseimas que compremos. O consumismo é uma história perigosa e debilitante, mas podemos trazer de volta – precisamos recuperar – nossa força para contar histórias. Podemos afastar aqueles hábitos com os quais gastamos bilhões de dólares e horas. Podemos reaver esse desperdício e recicla-lo criando histórias mais autênticas. Podemos anular os efeitos tóxicos de nossas pseudo-histórias, substituindo-as por histórias mais gratificantes que satisfaçam o coração, a mente, a imaginação e a busca de cada um de nós por justiça e paz, pelo retorno de benção de nossa vida diária. (FOX, 2002, 252)

Na prática, há sempre os três elementos - a ampliação/reafirmação da identidade cultural e ética (o caráter sagrado), o divertimento (o caráter lúdico) e a sugestão política de mudança e/ou de conservação dos valores morais (o caráter pedagógico) - distribuídos em diferentes proporções. Benjamim observa que, na modernidade, houve uma mudança na forma narrativa através da qual contamos estórias. No ambiente tradicional, as estórias eram transmitidas oralmente e, portanto, eram repetidas sempre da mesma forma – como exigem as crianças em seus primeiros anos. Quando ganhavam versões escritas, os narradores não se assumiam como autores da narrativa: Homero, Hesíodo, Virgilio, Apuleio apenas recontam narrativas que ouviram. No ambiente moderno, no entanto, o contador de estórias (escritores, cineastas, artistas) deve ‘ser criativo’, original e primar pela novidade, não só contando uma mesma estória de diferentes formas, mas sempre contando novas estórias. Assim, com a reprodutividade técnica e o desaparecimento da ‘áurea’ dos objetos de arte em geral, a originalidade teria sido substituída pela novidade também no campo discursivo das narrativas. Com a pós-modernidade, no entanto, tornou-se lugar comum não apenas recontar as histórias clássicas com um estilo autoral, mas também combinar histórias de diferentes culturas e épocas, relacionando-as, misturando seus personagens e textos, fazendo citações para serem reconhecidas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BATESON, Mary Catherine. História de uma vida. IN: SIMPKINSON, Charles & Anne. Histórias Sagradas: uma exaltação do poder de cura e transformação; tradução: Ione Maria de Souza Ferreira. Coleção Arco do Tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. p. 47

BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 2002.

BLY, Robert. Histórias que alimentam homens e mulheres. IN: SIMPKINSON, Charles & Anne. Histórias Sagradas: uma exaltação do poder de cura e transformação; tradução: Ione Maria de Souza Ferreira. Coleção Arco do Tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. p. 109

BYSTRINA, I. Tópicos de Semiótica da Cultura. São Paulo: PUC/SP, 1995.

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo, Editora Cultrix/Pensamento, 1995.

_________ O Poder do Mito. Editora Palas Athena, São Paulo, 1990.

ECO, Umberto. Leitor in Fábula. Coleção Narratologia, Editora Perspectiva, São Paulo, 1976.

_________ Sobre literatura. Editora Record, São Paulo, 2002.

ESTES, Clarissa Pinkola. A história como fonte terapêutica. IN: SIMPKINSON, Charles & Anne. Histórias Sagradas: uma exaltação do poder de cura e transformação; tradução: Ione Maria de Souza Ferreira. Coleção Arco do Tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. p. 85.

FOX, Matthew. Histórias que precisam ser contadas na época atual. IN: SIMPKINSON, Charles & Anne. Histórias Sagradas: uma exaltação do poder de cura e transformação; tradução: Ione Maria de Souza Ferreira. Coleção Arco do Tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. p. 251

GENETT, Gerard. O Discurso da Narrativa, Tradução: F. C. Martins. Lisboa: Vega, 1972.

GOMES, M. B. Um mapa, uma bússola – hipertexto, complexidade e eneagrama. Rio de Janeiro: Ed. Mileto, 2000.

GREIMAS, A. J. Semântica estrutural. Tradução: Haquira Osakabe e Isidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix, 1966.

KEEN, Sam. História sobre nossos mitos. IN: SIMPKINSON, Charles & Anne. Histórias Sagradas: uma exaltação do poder de cura e transformação; tradução: Ione Maria de Souza Ferreira. Coleção Arco do Tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. p. 35

KELEMAN, Stanley. Mito e Corpo – uma conversa com Joseph Campbell. Tradução: Denise Maria Bolanho. 2ª Edição. São Paulo: Summus Editorial, 2001.

JOHNSON, John L. Reabilitação de dependentes de drogas por meio da narração de histórias. IN: SIMPKINSON, Charles & Anne. Histórias Sagradas: uma exaltação do poder de cura e transformação; tradução: Ione Maria de Souza Ferreira. Coleção Arco do Tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. p. 165

LOORI, John Daido. O Zen e seus koans: instrumentos de autoquestionamento. IN: SIMPKINSON, Charles & Anne. Histórias Sagradas: uma exaltação do poder de cura e transformação; tradução: Ione Maria de Souza Ferreira. Coleção Arco do Tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. 199

SIMPKINSON, Charles & Anne. Histórias Sagradas: uma exaltação do poder de cura e transformação; tradução: Ione Maria de Souza Ferreira. Coleção Arco do Tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

ORWELL, George. Lutando na Espanha (homenagem à Catalunha). Rio de Janeiro: Editora Globo, 2006.

PEAT, David. A ciência como fonte de histórias. IN: SIMPKINSON, Charles & Anne. Histórias Sagradas: uma exaltação do poder de cura e transformação; tradução: Ione Maria de Souza Ferreira. Coleção Arco do Tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 2002. p. 61.

PROPP, Vladimir. Morfologia do Conto Popular. Lisboa: Editora Vega, 1978.

RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Tradução: C. M. Cesar. Campinas: Papirus, 1994. 3v.

VOGLER, Christopher. A Jornada do Escritor. Rio de Janeiro, Ampersand Editora, 1997.

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