quinta-feira, 15 de junho de 2017

A vítima e o juiz

"(Os toltecas) comparam o Juiz, a vítima e o sistema de crenças a um parasita que invade a mente humana. Do ponto de vista tolteca, todos os seres humanos domesticados são doentes. São doentes porque existe um parasita que controla a mente e controla o cérebro. A comida, para o parasita, são as emoções negativas produzidas pelo medo. Se repararmos na definição de "parasita", descobrimos que um parasita é um ser vivo que vive de outros seres vivos, sugando sua energia sem nenhuma contribuição útil em troca e machucando o hospedeiro pouco a pouco. O Juiz, a Vítima e o Sistema de Crenças se encaixam bem nessa descrição. (...) Os toltecas acreditam que os parasitas - o Juiz, a Vítima e o Sistema de Crenças - controlam sua mente; controlam seu sonho pessoal. Os parasitas sonham pela sua mente e vivem sua vida por intermédio de seu corpo. Sobrevivem nas emoções que têm do medo, e se alegram com o drama e o sofrimento." (Miguel Ruiz, Os quatro compromissos, 36-40)

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Eu não sou Xamã, SQN



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Aforismos Elementais

Devaneios de Investigação Metamítica



1. Gaston Bachelard
2. Fogo no Divã
3. Mergulho nos sonhos
4. Os movimentos do Ar
5. Força e Repouso
6. Colecionador de ecos
1. O cru e o cozido
2. Ciência + Tradição
3. Relacionando os elementos
4. Arranjos simbólicos Conceituais
1. O Vinho do Espírito
2. Inveja do Útero
3. Matriarcado Arcaico
1. Mito + Realidade
2. O Dilúvio
3. Do mito ao tipo
4. Édipo tupiniquim
5. O desequilíbrio do Fogo



domingo, 30 de novembro de 2014

A Metapoética dos Quatro Elementos



1. Gaston Bachelard
Para Gaston Bachelard, o instante poético (e, consequentemente, o momento de criação artística em geral ou insight criativo) é uma verticalização do tempo, que se torna mais simultâneo e menos contínuo, comparada ao transe místico e à experiência do sagrado. Bachelard é um pensador duplo: tem textos diurnos dedicados à epistemologia da ciência e textos noturnos sobre o universo simbólico da poesia. Nos textos noturnos, ele adota uma perspectiva junguiana, em que o inconsciente é coletivo e habitado por arquétipos, formas transculturais recorrentes nos sonhos e nas artes. Há ainda, na estética bachelardiana, uma experiência cognitiva visual (ou a imaginação dos olhos) e uma experiência cognitiva material (ou a imaginação das mãos). Para Bachelard, essa imaginação material e dinâmica, expressa através dos padrões recorrentes dos quatro elementos alquímicos (terra, água, ar e fogo), é a linguagem primária do inconsciente.
A psicanálise foi seu ponto de partida. Durante sua fase diurna, de 1912 a 1938, Gaston Bachelard desejava estabelecer, em sintonia com as novas teorias relativistas desenvolvidas pela física teórica, um novo espírito científico (1990c). Nesta perspectiva, a verdade objetiva era sempre o desmascarar de uma ilusão aparente, era sempre a crítica do senso comum e da ideologia. A alquimia baseada nos quatro elementos era uma forma de conhecimento ideológica; quando se descobriu número atômico e a tabela periódica dos elementos químicos então se passou ao conhecimento científico. A essa ruptura com as ilusões subjetivas ideológicas que revela a objetividade científica, Bachelard chamou ‘corte epistemológico’. Nessa época, ele utilizava a psicanálise para exorcizar a imaginação, considerada como um ‘obstáculo epistemológico a superar’.
É curioso que a passagem do Bachelard diurno (em que a crítica racional desvenda a imaginação) para o Bachelard noturno (que investiga a poesia através da imaginação) se deu sem grandes cortes nem rupturas radicais.
2. Fogo no divã
O livro A Psicanálise do Fogo (1990b) pode ser considerado uma transição inicial, mas houve um longo processo gradual, cumulativo e contínuo de construção do projeto de uma poética elementar da imaginação. Neste livro, escrito em 1939, a intenção de Bachelard é desmistificar o fogo, elucidando os diferentes 'complexos subjetivos' que impedem a compreensão do objeto. Seu alvo é a permanência secreta de uma idolatria do fogo, uma vez que até cientistas recorrem a imagens primitivas para explicá-lo. Os complexos são organizados em referência a diferentes narrativas míticas sobre o fogo: o complexo de Prometeu, o desejo de possuir o fogo contra a vontade dos deuses (1999b, 11-19; 1990b, 89-112); o complexo de Empédocles, o desejo irracional de se deixar consumir pelo fogo (1999b, 21-31; 1990b, 113-142); o complexo de Novalis, o fogo associado ao amor correspondido (1999b, 33-63), o complexo da dissociação entre o fogo sagrado, a luz divina; e as chamas que queimam nos infernos, o sexo (1999b, 24).
Bachelard, após psicanalisar as imagens do fogo, chega a uma conclusão curiosa: não aceita que a descoberta do fogo pelos povos primitivos tenha sido causada pela fricção de dois pedaços de madeira ao acaso. Para ele, "o amor é a primeira hipótese científica para a reprodução objetiva do fogo" (1999b, 47); "uma criação do desejo e não uma criação da necessidade" (1999b, 24).
No final da vida, após escrever livros sobre a água, o ar e a terra, Bachelard escreveu ainda mais dois livros sobre o elemento fogo: Fragmentos de uma poética do fogo (1999b), deixado inacabado; e A chama de uma vela (1989), em que trabalha com imagens-lembranças de sua própria vida e com as relações entre a imaginação poética e a memória. O fogo, nesses livros, se confunde com a vida, combustível que move os corpos, os aquece e traz recordações sobre si mesmo.
3. Mergulho nos sonhos
Já em A água e os sonhos (1998), segundo livro da série escrito em 1942, não se trata mais de desmistificar as ilusões em torno do elemento, mas sim de imaginar, devanear através de imagens, a partir da água. Há também complexos de imagens aquáticas, como o complexo de Ofélia ou o complexo de Caronte (1998, 73), mas esses são formados pelo recalcamento e sublimação dos arquétipos (no caso, dos arquétipos da água e da morte), e não mais por ilusões subjetivas que precisam ser decifradas.
Ofélia é uma personagem da peça Hamlet, de Shakespeare, que se suicida por se sentir rejeitada pelo protagonista. Os psicanalistas em geral a consideram como um símbolo da mulher submissa, uma contraparte feminina do complexo de Édipo encarnado por Hamlet. Para Bachelard, esse complexo se expressa na ondulação da água nas pedras de um riacho, formando uma imagem semelhante aos cabelos de uma mulher afogada. Já Caronte é o barqueiro de Hades, que, na mitologia grega, leva os mortos de balsa aos infernos. Para Bachelard, Caronte é o guardião do limiar, não apenas da morte, mas também dos sonhos profundos das águas pesadas.
Há uma diferença entre a noção de arquétipo de C. G. Jung e os complexos de imagens simbólicas dos elementos de Bachelard. Para Jung, o arquétipo se refere às representações coletivas e primordiais do Inconsciente coletivo, formando um modelo básico de comportamento instintivo. Já as imagens poéticas que Bachelard estuda são sublimações individuais dos arquétipos coletivos e dependem da subjetividade do sonhador:
“é essa contribuição pessoal que torna os arquétipos vivos; cada sonhador repõe os sonhos antigos em uma situação pessoal. Assim se explica porque um símbolo onírico não pode receber, em psicanálise, um sentido único” (BACHELARD, 1990a, 174).

Para Bachelard, o arquétipo da água se confunde com a própria imaginação, com o quase-substrato da imaginação material, o plasma onde ela acontece. A água é, ao mesmo tempo, fluída, solvente, homogênea e coesa; representando o ideal alquímico Solve e Coagula, a imaginação do concreto sublimado e a materialização do imaginário.
Assim, a água ocupa, na meta poética do devaneio de Bachelard, um lugar intermediário entre o sólido e o gasoso, entre a materialidade compacta da terra e a suave leveza do ar (BACHELARD, 1998, 7).
Também com a água, surge a distinção entre imaginação material (ou das mãos) e formal (ou dos olhos).
Expressando-nos filosoficamente desde já, poderíamos distinguir duas imaginações: uma imaginação que dá vida à causa formal e uma imaginação que dá vida à causa material; ou, mais brevemente, a imaginação formal e a imaginação material. (BACHELARD, 1998, 1)

A imaginação formal valoriza o modelo teórico matemático e a formalização lógico-empírica da tradição aristotélica, cartesiana e positivista das ciências naturais. Centrada no sentido da visão, ela resulta no exercício constante da abstração. O homem é um espectador passivo e ocioso em relação ao mundo que o rodeia.
Já a imaginação material, o homem é um agente ativo em conflito com os elementos da matéria; é uma filosofia ativa das mãos, provocada e provocante por um universo sólido e concreto. É a imaginação dos trabalhadores-artistas que modelam o mundo através de suas vontades de poder.
Nesse sentido, aproxima-se de Nietzsche, que pensa a marteladas, a quem considera um pensador aéreo (BACHELARD, 2001c, 127-162), em virtude de suas imagens vertiginosas e abissais.
4. Movimentos no Ar
Com o elemento ar, surgem as noções de imaginação dinâmica[1], de poética do movimento, de verticalização do tempo e de psicologia ascensional. Enquanto a imaginação material refere-se à materialização do imaginário, a imaginação dinâmica, no polo oposto, e à volatização quântica dos objetos concretos.
“A imaginação dinâmica ganha então a dianteira sobre a imaginação material. O movimento imaginado, desacelerando-se, cria o ser terrestre; o movimento imaginado, acelerando-se, cria o ser aéreo” (BACHELARD,  2001c, 109).

Em segundo momento, no entanto, Bachelard considera uma imaginação dinâmica dos movimentos (associada a esse efeito desmaterializante do elemento Ar) e uma imaginação dinâmica das forças - que é desenvolvida no livro A terra e os devaneios da vontade (2001b). E nesse novo esquema, a imaginação material vai se opor, como complemento e polo oposto, às duas imaginações dinâmicas (do movimento desmaterializante e das forças em combate contra a dureza e solidez do mundo material).
E, em um terceiro momento, a imaginação material corresponderá aos devaneios de repouso e as imagens da intimidade - que são estudadas no livro A terra e os devaneios do repouso (1990a)[2].
O livro O Ar e os Sonhos (2001c) é dedicado à imaginação dinâmica do movimento. Bachelard recolhe imagens aéreas: horizontes sem fim, vacuidades, espaços abertos, imensidões celestes, sonhos em voo e de queda, árvores gigantescas, mas principalmente do movimento desmaterializante e das imagens de verticalização do tempo: os lampejos da eternidade, os instantes absolutos em que o mundo para, o insight poético, o momento de sincronicidade em que elementos diversos e até contrários formam uma unidade. Nas imagens aéreas de movimento, o mundo dos objetos se torna um universo de relações, de frequências vibracionais – e isso faz Bachelard sonhar, no final do livro, com uma ‘nova fenomenologia’, em que o tempo seja uma dimensão do espacial, considerando a duração e a intensidade dos eventos e em que o pensamento se reconcilie com a imaginação.
Mas, essa ideia logo irá cair por terra ...
5. Força e Repouso
As imagens que o elemento terra suscita em Bachelard ocorrem em dois planos. O plano da extroversão que se refere à imaginação dinâmica e diz respeito aos devaneios ativos que agem sobre a matéria; e o plano da introversão, formado pelas imagens de intimidade. Dedicou a cada plano um livro.
A terra, com efeito, ao contrário dos outros três elementos, tem como primeira característica uma resistência. Os outros elementos podem ser hostis, mas não são sempre hostis. A resistência da matéria terrestre, pelo contrário, é imediata e constante (BACHELARD, 2001b, 8).

Em A terra e os devaneios da vontade (2001b), Bachelard imagina o impacto da matéria sobre o impulso criador humano. O martelo (o metal) nos ensina a disciplina da regularidade, a firmeza de propósito, a vitória gradativa sobre a matéria. As vontades de poder aram a terra e são por ela formatadas. A subjetividade também é forjada pela resistência material. A matéria resiste à força humana e o corpo se adapta, muscularmente, às resistências da matéria.
E o livro A terra e os devaneios do repouso (1999a), no contraponto do desenvolvimento dessas vontades em confrontos com o mundo material, estuda as imagens da beleza íntima da matéria; o espaço afetivo que há no interior das coisas; e principalmente a tranquilidade que aí reside: a casa, o ventre e a gruta.
É ao sonhar com essa intimidade que se sonha com o repouso do ser, com um repouso enraizado, um repouso que tem intensidade e que não é apenas essa imobilidade inteiramente externa reinante entre as coisas inertes. É sob a sedução deste repouso íntimo e intenso que algumas almas definem o ser pelo repouso, pela substância, em sentido oposto ao esforço que fizemos, em nossa obra anterior, para definir o ser humano como emergência e dinamismo (BACHELARD, 1990a, 4).

Ao que parece, o combate (e o repouso) da imaginação de Bachelard contra a matéria realmente o tornou mais sábio, uma vez que nesses dois livros, e nos que se escreverá em seguida, ele abandona qualquer pretensão científica e se limita devanear através das imagens.
6. O Sonhador
“Arauto da pós-modernidade” (ARAUJO, 2003), Bachelard abriu caminho para as teorias contemporâneas do imaginário. Gilbert Durand, Mircea Eliade e Paul Ricouer foram admiradores confessos de sua coragem e liberdade poética e filosófica. Também foi alvo de várias críticas devido a sua falta de sistematicidade. Porém, possivelmente, a verdade é que Bachelard queria apenas devanear e provocar devaneios. Aliás, o elemento provoca o sonhador, cujo devaneio nos provoca.
A meta poética bachelardiana é uma relação dialógica entre o homem e a matéria, inspirada na alegoria materialista alquímica. C.G. Jung (2003) já desconfiava que os alquimistas não operassem apenas com metais, mas sim o próprio corpo, através do simbolismo astrológico e elemental; e que o ideal alquímico de transformar chumbo em ouro, nada mais era do que elevar a matéria densa para sutil dentro de si mesmo, como um laboratório vivo.
Talvez Bachelard se sentisse culpado (por que não psicanalisá-lo também?) com sua desconstrução da física aristotélica dos quatro elementos através da epistemologia científica e tentasse oferecer a compensação de inserir novamente os elementos em o que muitos chamam de uma ‘metafísica’. Na verdade, uma protofísica, pois colocou as imagens simbólicas dos elementos aquém e não além dos objetos representados.
Da mesma forma que é falsa a tentativa classifica-lo como filósofo metafísico, também parece equivocado tentar enquadrá-lo como crítico literário. Bachelard não analisa livros ou poemas completos, mas apenas versos soltos; Edgar Alan Poe é o único poeta que é estudado em profundidade (pois é um poeta da água). Mais do que um crítico literário, Bachelard é um poeta se que utiliza de outros poetas, agregando a eles sua poesia.
Daí porque preferirmos o nome de ‘metapoética’ para caracterizar seu trabalho, do que a metafísica ou crítica literária. Porém, o essencial é que Bachelard encarna uma estética da atividade, que nos incita a também devanear, que nos encoraja a também sonhar. Por isso, a melhor crítica é também a melhor homenagem: aceitar o desafio e também lutar, também lançar a imaginação ao devaneio metapoético.


[1]  Freitas (2006) identifica cinco configurações da imaginação poética nos devaneios dos quatro elementos de Bachelard: 1) a imaginação material; 2) a imaginação dinâmica do movimento; 3) a imaginação dinâmica das forças; 4) as imagens-lembrança; e 5) a imaginação arquetipal.  Para ele, essas configurações se sobrepõem umas as outras ao longo do trabalho do filósofo-poeta.
[2] Os devaneios de repouso e as imagens de intimidade são retomados em A poética do espaço (2000), mas sem o apelo simbólico aos elementos.

As Relações Elementais



1. Ciência + Tradição
Lévi-Strauss (1976) afirma que o pensamento selvagem classifica as coisas (cores, sons, cheiros, animais, datas, pessoas) segundo critérios subjetivos derivados de experiências sensoriais; em oposição ao pensamento científico domesticado, que classifica o mundo segundo critérios objetivos universais.
Viveiros de Castro (2001) nos alerta que o pensamento selvagem de Strauss não é o pensamento dos selvagens, mas sim o pensamento em estado selvagem, ainda não domesticado. Ele não é incompatível com o pensamento científico. O pensamento selvagem se refere a propriedades sensíveis; o pensamento científico se refere às propriedades abstratas. 
Para o conhecimento científico atual, o Fogo é uma reação química; a Água, um fluído universal; o Ar, um gás raro e rarefeito; e a Terra, um sistema biológico. Com a física relativista, o tempo se tornou uma dimensão do espaço. E com a física quântica, a matéria passou a ser compreendida como uma forma de energia.
Sendo assim, se estivermos em um universo eletromagnético, como acredita a física atual, pode-se pensar que o polo elétrico corresponde ao Fogo e é ativo; enquanto o polo magnético é receptivo e corresponde ao elemento Terra. O Ar e Água, nesse caso, seriam elementos intermediários e condutores de eletricidade e magnetismo. Além disso, grosso modo, o Fogo corresponde ao Nitrogênio; a Água ao Hidrogênio; o Ar ao Oxigênio; e a Terra ao Carbono. A polaridade Fogo-Terra, assim, equivale às trocas químicas entre a vida orgânica (carbono) e a existência inorgânica (nitrogênio). E muitas versões mitológicas e esotéricas subdividem o elemento Terra em reinos (animal, vegetal e mineral) em função do desenvolvimento e da complexidade do carbono – e de sua interação com o hidrogênio e com oxigênio. Portanto, é possível pensar sobre os quatro elementos dentro de um quadro de referências objetivas.
Mais recentemente começou-se a falar em biosfera, hidrosfera, atmosfera e ... ‘noosfera’ (o mundo das ideias) – termo criado por Teilhard de Chardin e popularizado atualmente por Edgar Morin. Mas, as ideias são apenas unidades subjetivas (devaneios cristalizados) de frequências vibratórias acústicas e luminosas, de ondas elétricas do elemento Fogo. O termo ‘ionosfera’, por sua vez, enfocando apenas o aspecto externo do universo elétrico, exclui o homem das trocas ambientais entre os elementos, ignorando seu papel determinante no jogo de construção do mundo material.
 Por outro lado, há vários esoterismos (a Cabala, a Rosacruz, a Teosofia, a Antroposofia), que entendem o universo como um processo de involução (ou criação) progressiva de quatro estágios/mundos: as idades da terra (planeta). Nessas concepções, os quatro elementos representam a presença de três desses estágios anteriores no interior do presente mundo material. Assim, primeiro houve a era do ouro e do fogo celeste, depois a era de prata e da água divina; a era do cobre e do ar cósmico; e agora, o mais denso dos tempos, o kali-yuga, a era do ferro e da matéria formado pelos quatro elementos. Cada estágio/universo de desenvolvimento do planeta corresponde também a um 'corpo'. Assim, temos uma centelha divina no mundo arquetípico das emanações; uma alma que habita o mundo espiritual da criação e dos sonhos; uma mente operando no astral inferior; e um corpo na matéria.
2. Relacionando os elementos

NOOSFERA
Fogo exterior
HIDROSFERA
Água exterior
ATMOSFERA
Ar exterior
BIOSFERA
Terra exterior
ESPÍRITO
Fogo interior
REI DE PAUS
FOGO PURO
DAMA DE PAUS
Água dentro de fogo
O CALOR
CAVALEIRO DE PAUS
Ar dentro de fogo
A LUZ
SERVO DE PAUS
Terra dentro do fogo
A VIDA
ALMA
Água interior
REI DE COPAS
Fogo dentro de Água
O SONHAR
DAMA DE COPAS
ÁGUA PURA
CAVALEIRO DE COPAS
Ar dentro da Água
IMAGINAÇÃO SIMBÓLICA
SERVO DE COPAS
Terra dentro da Água
A SENSIBILIDADE
MENTE
Ar interior
REI DE ESPADAS
Fogo dentro de Ar
O ARQUÉTIPO
DAMA DE ESPADAS
A Água dentro de Ar
IMAGINAÇÃO FORMAL
CAVALEIRO DE ESPADAS
AR PURO
SERVO DE ESPADAS
Terra dentro de Ar
A LINGUAGEM
CORPO
Terra interior
REI DE OUROS
Fogo dentro de Terra
O PODER
DAMA DE OURO
Água dentro da Terra
A RIQUEZA
CAVALEIRO DE OUROS
Ar dentro da Terra
O TRABALHO
SERVO DE OUROS:
TERRA PURA
Propomos aqui um exercício teórico-poético, com o objetivo de investigar através da imaginação simbólica as relações dos quatro elementos entre si – tendo como referência as 16 cartas figuradas dos Arcanos Menores do Tarô: os naipes correspondem às esferas elementais (Paus = Noosfera, Copas = hidrosfera, Espadas = Atmosfera e Ouros = Biosfera); enquanto as figuras são associadas ao microcósmico (Rei = Espírito, Dama = Alma, Cavaleiro = Mente e Pajem = Corpo).
Assim, no Naipe de Paus (a noosfera/ionosfera), encontramos quatro manifestações do elemento Fogo: O Rei de Paus, representando o elemento puro; A Dama de Paus (a Água dentro do Fogo) associada à ideia de Calor; O Cavaleiro de Paus (o Ar dentro do Fogo) representação da Luz; e o Servo de Paus (Terra dentro do Fogo) simbolizando a Vida.
O elemento Água no interior do universo ígneo se evapora em ondas de vapor úmido. É um fogo que queima e se alastra. Não é apenas um calor térmico, é também pressão, expansão. A alma sua memória purifica no espírito: a água quando se evapora, se destila, eliminando suas impurezas[1]. Por isso, também corresponde à qualidade psicológica da sublimação. Essa relação corresponde ao fogo dinâmico, contínuo e ao signo astrológico de Áries. Já o elemento Ar dentro da noosfera corresponde ao signo astrológico de Leão, ao Fogo fixo, estático e extático: a luz. Em várias mitologias, há uma oposição nítida entre o fogo que queima e o que ilumina, entre o fogo sexual e o espiritual. Essa oposição, no entanto, é equilibrada pelo Fogo mutável, a Terra dentro do Fogo, a vida, que corresponde ao signo astrológico de Sagitário, representado por Centauro, cuja parte inferior (o cavalo) corresponde ao fogo animal dos desejos e a parte superior (o guerreiro com arco e flecha), ao fogo espiritual.
Também se podem ver as três relações do fogo como diferentes tipos de ‘energia’: a vida orgânica produz a energia Chi (ou ki, japonês); a energia inorgânica (dos diferentes aspectos da natureza) é o Axé; e a energia das estrelas é o prana (ou reiki), a energia quântica. Nessa analogia, a energia das estrelas é a luz (fogo fixo); o axé corresponde ao calor (fogo dinâmico); e a energia orgânica, à vida (fogo mutável).
As águas seguem um ciclo bem conhecido: elas caem dos céus como sonhos (a água dinâmica, o signo de Câncer); escorrem pelos rios como a imaginação (a água mutável, Peixes); e desaguam no mar de emoções (a água fixa, Escorpião) e, após salgadas, novamente evaporarem pela ação do sol. Impossível não lembrar as deusas nagôs Yansã, Oxum e Yemanjá – adotadas pelo candomblé brasileiro.
Eliade demonstra (1992, 153-174), a universalidade da relação entre o simbolismo da água com a Lua e com o feminino. No esoterismo em geral, o simbolismo das águas está associado ao universo da emoção e dos sentimentos. O Rei de Copas, representando o elemento Fogo dentro deste mundo emocional, o espírito dentro da alma, nos evoca a noção de Sonhar, de um corpo astral através do qual a consciência navega em outros universos. A Dama de Copas corresponde ao elemento Água puro. O Cavaleiro de Copas, o Ar (a mente) no interior do universo emocional é uma representação da Imaginação Simbólica. O símbolo do espelho (GOMES, 2010, 21-46) também participa deste complexo de imagens. E, finalmente, o Servo de Copas, a terra dentro da água, nos lembra do sal e da Sensibilidade, o aspecto sensorial do universo afetivo.
O naipe de espadas simboliza o universo mental, onde encontramos o ar fixo em relação com o fogo, o signo de Aquário; o ar mutável (Gêmeos), em relação com a água; e o ar dinâmico (Libra), em relação com o elemento terra. O Rei de Espadas, representando a presença do espírito dentro da mente, nos remete à noção de Arquétipo e às imagens de relâmpagos e descargas elétricas no céu. A Dama de Espadas, a alma dentro da mente, nos faz lembrar a imagem de uma gota de orvalho e nos remete à ideia de Imaginação formal, da formalização dos sentimentos. O Cavaleiro de Espadas representa o elemento Ar em seu estado puro. E o Servo de Espadas, a Terra dentro do Ar, é a Linguagem, a materialização do pensamento.
O Rei de Ouros, fogo dentro do mundo material, a terra Dinâmico (Capricórnio) é representado pelas imagens vulcânicas da terra ctônica, pelos metais, pedras preciosas e pela ideia de Poder. Poder não no sentido de dominação do outro, mas sim de capacidade imanente de fazer. A Dama de Ouros, a água dentro da biosfera, corresponde à terra mutável (Virgem), à ideia de Riqueza e às imagens de solos argilosos e férteis. Riqueza não no sentido de acumulação de bens materiais, mas sim de variedade e complexidade de recursos. O Cavaleiro de Ouros, o ar dentro da matéria, a terra fixa (Touro) representa a ideia de Trabalho e das imagens de pedras sólidas e solos arenosos. Trabalho não só no sentido de atividade transformadora do mundo material, mas também no sentido de ser transformada por essa mesma mudança. E o Servo de Ouros simboliza o elemento Terra puro.
Assim, na biosfera, o poder (fogo imanente de uma terra constante) está em oposição ao trabalho (o ar em movimento em torno da terra fixa, o planeta). O resultado é a riqueza, a fertilidade e a abundância.
Ao estudar as relações elementais, abordaram-se os quatro elementos em séries de três, observando como cada elemento atua dentro de um único elemento de modo dinâmico, fixo e mutável. Pode-se também tomar os elementos por colunas, investigando como um mesmo elemento atua no interior dos outros três.
O elemento Fogo dentro da esfera das emoções se manifesta como Sonho, no interior do plano mental como Arquétipo e dentro da matéria como Poder. A Água no interior da esfera espiritual é Sublimação; dentro da mental, Imaginação; e nas entranhas da matéria, Riqueza. O elemento Ar na esfera espiritual explode em Luz; na esfera emocional se vê em um Espelho Simbólico; e dentro da esfera material, trabalha. A Terra no interior do plano espiritual é Vida, dentro do plano emocional, Sensibilidade; e no interior do plano mental, Linguagem.
3. Arranjos simbólicos conceituais
Bem estabelecido esses conceitos, vários arranjos simbólicos podem ser desenvolvidos em devaneios poéticos. A sequência dos signos das constelações do zodíaco astrológico, por exemplo, nos mostra os conceitos simbólicos embutidos na passagem do ano.
O Calor (o fogo cinético) é necessário para a arrancada dos começos, no equinócio da primavera; que se perpetua através do Trabalho (a terra estática) em abril e maio; estabelece-se então uma Linguagem (o ar mutável) comum no solstício de inverno; que nos permite Sonhar (a água dinâmica) em julho. A simplicidade majestosa da Luz (o fogo fixo) de agosto contrasta com a multiplicidade e com a complexidade da Riqueza (a terra mutável). No outono, a imaginação Formal (o ar cinético) tenta uniformizar as coisas, criando padrões e modelos; mas consegue apenas uma explosão de Sensibilidade (a água fixa) em novembro. Então, no final do ano a Vida (o fogo mutável) é combustível do Poder (a terra cinética) que tenta perpetuá-la, através do Arquétipo (o ar fixo) e da Imaginação Simbólica (a água mutável).
Ou ainda se colocarmos os signos zodiacais em pares opostos (180º): O Calor deseja incendiar os padrões da Imaginação Formal que a aprisiona; o Trabalho forma e é formatado pela Sensibilidade; a Linguagem imita a Vida que também a imita; Sonho e Poder brigam apaixonadamente; a Luz emana o Arquétipo que a protege; e a Riqueza e a Imaginação Simbólica travam uma luta silenciosa na construção dos valores.
Mas os arranjos de símbolos mais significativos são os que combinamos conceitos dos mesmos elementos.
O caráter oposto e complementar entre a Imaginação Simbólica (a mente no plano emocional) e a Imaginação Formal (a alma no plano mental) fica então bem definido. Enquanto a primeira pode ser representada pela bolha da percepção, a última lembra uma gota de orvalho em queda livre. A Imaginação Formal produz sentido dinamizando Arquétipos, enquanto a Imaginação Simbólica produz Sensibilidade a partir dos Sonhos.
A relação do Trabalho (a mente dentro do plano material) com a Linguagem (o corpo no interior do plano mental) também formam contradições de simetria invertida, as duas atividades combinam ar e terra em dinamizações diferentes, sendo que, no Trabalho, o labor corporal está inteligentemente orientado e, na Linguagem, a cognição se esforça dar sentido ao concreto.
O mesmo acontece na relação do Sonhar (o espírito dentro do plano emocional) com o Calor/sublimação (a alma no interior do plano espiritual): no sonho, o espírito navega em um mar de emoções; na sublimação, a alma destila suas dores no inferno/paraíso. E a relação da Sensibilidade (o corpo dentro da esfera emocional) com a Riqueza (o coração no interior do plano material) retrata a simetria invertida entre os elementos Terra e Água, representando a consciência de nossa finitude diante da grandeza do universo; o aprendizado afetivo de aceitação do mundo. As relações do Arquétipo (o espírito dentro do plano mental) com a Luz (a mente no interior do plano espiritual) e da Vida (o corpo dentro do plano espiritual) com o Poder (o espírito no interior do plano material), além de formarem contradições de simetria invertida como as outras quatro acima, também são opostos zodiacais e se constituem como arranjos simbólicos conceituais bastante significativos.
A relação do conceito simbólico ‘Arquétipo’ com a noção de ‘Luz’ representa a simetria invertida dos elementos Fogo e Ar. Os Arquétipos se assemelham às brasas e a fumaça, formas que emergem rapidamente das brasas. São imagens passageiras. Já a Luz é eterna, fixa, estática e apolar. A mente é apenas o ambiente em que ela se perpetua. Tratamos dessa relação mais adiante, no capítulo intitulado Estudos Cabalísticos. E a relação entre os conceitos simbólicos Vida e Poder expressa a simetria invertida mais importante de todas, a dos elementos Terra e Fogo. O Poder tenta controlar a Vida, mas é eternamente derrotado pela morte. Por outro lado, a vontade de poder é afirmação do desejo de realização aceito em sua fragilidade efêmera. Abordamos a relação entre Poder e Vida no final desse trabalho.
A Terra é o elemento que reúne o maior número de imagens arquetípicas. A rigor, todas as imagens são materiais, mesmo as de movimento e força. E da mesma forma que associamos as três relações elementais ao reino mineral (metal, argila e calcário), também se pode associá-las aos reinos vegetal (os vegetais, os fungos e os corais) e animal (os peixes, as aves e os mamíferos).
Há, no entanto, algumas imagens chave do elemento Terra, imagens de repouso que extrapolam as ideias de acolhimento e proteção - como o útero e o vinho – que também escapam aos arranjos dos conceitos simbólicos simétricos e transbordam a imaginação com outras formas de pensar.


[1] Há também poetas e mitologias que consideram o ‘imaginário do frio’ como sendo uma referência ao mal absoluto e/ou a morte eterna.