quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Ahmed


As Aventuras do Príncipe Ahmed[1]

A festa
Era, no tempo das histórias contadas, o dia do quinquagésimo aniversário do grande Califa de Bagdá.
Preparou-se então uma imensa festa, com a presença de convidados de diferentes reinos e países distantes. O rei da Pérsia presenteou o Califa com um tesouro de joias e ouro. Os sultões indianos compareceram juntos com um exército de elefantes e tigres. O poderoso feiticeiro africano Jáfar deu como presente para o Califa um cavalo mágico alado negro como a noite. A princesa Jasmim e seu irmão, príncipe Ahmed, também participavam dos festejos e observaram a demonstração de voo do cavalo.
Encantado pelo cavalo negro, o Califa oferece ao bruxo Jáfar a livre escolha de todos os tesouros de seu palácio. Aproveitando-se da oferta generosa, o feiticeiro revela sua intenção de usurpar o trono e escolhe a princesa Jasmim para se tornar herdeiro de Bagdá – causando grande desconforto no Califa.
Ahmed, herdeiro legítimo do califado, se interpõe, dizendo que sua irmã não estava a venda e que não acredita no cavalo voador.
O bruxo então convidado o príncipe a experimentar pessoalmente a montaria, para que que ele próprio verificasse que não havia nenhum truque e que o cavalo realmente voava. Quando o príncipe monta, o cavalo voa para longe, subindo pelas nuvens e desaparece. Em seguida, o mago é preso e anuncia como vingança, que o príncipe Ahmed não voltará mais ao mundo dos vivos.
No inferno
O cavalo leva o príncipe Ahmed aos reinos infernais governadas pela rainha Isthar. Os demônios se disfarçam de damas da corte e recebem o recém-chegado como um hospede, mas acabam brigando entre si pelo forasteiro. Ahmed, percebendo a armadilha, aproveita a ocasião e foge em seu cavalo voador para outra ilha vizinha.
Sabendo do acontecido, a própria rainha diaba Isthar decide seduzir e enfeitiçar o príncipe. Todas as noites, ela se transforma em um pássaro deslumbrante e voa em companhia de suas aias para banhar-se em um lago encantado na ilha em que Ahmed se esconde.
Completamente enfeitiçado, Ahmed decide casar-se com ela. Então, o príncipe apaixonado persegue e rapta a rainha pássara, levando-a no corcel negro até a China – para esconde-la dos demônios e de seus súditos infernais.
Na China
Enquanto isso, o mago preso em Bagdá descobre, em transe, o paradeiro de seu cavalo voador e foge do cárcere, transfigurando-se em um morcego para voar até a China.  
Ao chegar, o mago, transfigurado de canguru, rouba a veste de pássaro da rainha Isthar. Ahmed, tentando recuperar o vestido, cai em um fosso e fica preso debaixo da terra.
O mago então volta, em sua forma humana, e entrega a roupa roubada à Isthar. Mentindo à rainha, dizendo que a levará a Ahmed; o feiticeiro a engana e a vende como escrava ao Imperador da China.
Depois de lutar contra uma enorme serpente, Ahmed consegue sair da fenda entre as rochas em que estava preso. Ao sair, o jovem príncipe encontra uma garrafa antiga. Quando a abre, esperando encontrar algum líquido para saciar sua sede, uma poderosa gênia sai da garrafa e se apresenta ao herói.
- Sou Húri, a gênia guardiã da montanha de fogo, aprisionada na garrafa pelo feiticeiro Jáfar, faz muitos séculos. Como retribuição por ter me liberdade te concedo três desejos.
Como primeiro desejo, o príncipe pediu para ir até a China e a gênia lhe deu um tapete voador e uma espada mágica. Quando Ahmed chegou à China para resgatar seu grande amor, os demônios do inferno, reclamando o retorno de sua rainha, já haviam destruído quase todo país. O príncipe ainda derrotou dois dragões voadores, mas quando chegou ao palácio não encontrou mais Isthar, que havia voltado para seu reino infernal, deixando um grande rastro de destruição pelo caminho.
A guerra dos magos
Ahmed gastou seu segundo desejo voltando ao inferno. Lá chegando, no entanto, o príncipe encontra o feiticeiro Jafar na entrada, disposto a não o deixar entrar. Ahmed, utilizando seu último desejo, invoca a gênia Húri que assume a luta contra o feiticeiro, deixando o príncipe livre para entrar furtivamente no inferno e convencer Isthar a casar-se com ele. Jáfar se transforma em um elefante, Húri se torna um rato; o feiticeiro muda para gato, a gênia se metamorfoseia em um vírus; e assim por diante em um duelo da imaginação. Enquanto isso, Ahmed entra no inferno e encontra sua rainha, essa, no entanto, reluta em segui-lo.
Finalmente, a gênia Húri logra aprisionar o feiticeiro Jáfar dentro da garrafa. Isthar, no entanto, não concorda em abandonar seu reino para se casar com Ahmed em Bagdá. E desde então, o emir passa seis meses (o outono e o inverno) no inferno com sua consorte e seis meses (a primavera e o verão) nos reinos de seu pai e de sua irmã. Sempre voando em seu cavalo negro como a noite escura das luas novas. 

E assim, desde então, a divindade feminina derrota os homens maus. Em compensação, os homens bons sucumbem ao feminino ctônico. A maldição dos pares descasados pronunciada por Jáfar segundos antes de ser aprisionado, que perdura até os nossos dias. 



[1] As Aventuras do Príncipe Achmed é um filme alemão (1926) de animação de silhuetas de Lotte Reiniger. O filme trabalha diversas tramas pouco conhecidas dos contos de Mil e Uma Noites – principalmente da história O Cavalo de Ébano. Há uma versão solo traduzida do árabe por Richard Burton e publicada em português pela editora Hedra (2014). Pasolini também a conta em seu filme. Nessas versões a história de Aladim e a lampada maravilhosa é posta como um sub-enredo da história do príncipe Ahmed. No final, Aladim casa-se com Jasmim e Ahmed como Pari Banu, a deusa infernal. Na presente versão: a) alteramos alguns enredos misóginos; b) retiramos a história de Aladim da narrativa; e c) encerramos a história segundo a lenda da deusa babilônica de Isthar.

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