OS DOIS ADÃOS
Marcelo Bolshaw Gomes
Resumo: esse texto compara duas formas de pensar o tema mitológico dos dois adãos: a Cabala de Halevi e as análises decorrentes das recentes descobertas na mitologia suméria acadiana.
Palavras-chave: hermenêutica, mitologia comparada, cabala,
1. Introdução
Se procurarmos pelo tema dos “dois Adãos” na Internet, a primeira referência a aparecer é a de São Paulo. Para ele, o primeiro é o homem primordial que foi expulso do paraíso e o segundo é o Cristo, o Messias; a superação do pecado original e o retorno a condição anterior à queda da humanidade. Essa ideia é retomada por Santo Agostinho, com a Nova Jerusalém como objetivo histórico da humanidade. Porém, Saulo de Tarso e Agostinho de Hipona estão respondendo a uma questão anterior da exegese judaica tradicional, em que há dois adãos segundo diferentes trechos das escrituras: Adam kadmon (o molde humano, a imagem e semelhança de Deus) e Adam Harishon (o primeiro humano, criado no sexto dia, expulso do Éden).
Na mitologia suméria acadiana (de onde o Génesis bíblico foi compilado), há, segundo Zecharia Sitchin, dois personagens diferentes: Adama e Adapa. O primeiro humano primitivo foi concebido em laboratório, pelo enxerto de DNA alienígena em macacos pelos deuses Enki e Ninmah. Enquanto Adapa é um sábio pré-diluviano que viajou até o planeta natal dos “deuses” e retornou à terra. Em sua viagem, Adapa descreve a terra redonda e todos sistema solar inclusive Plutão.
O objetivo aqui é comparar duas hermenêutica diferentes, duas formas de interpretar o tema mitológico dos dois adãos: a Cabala e as análises decorrentes das recentes descobertas na mitologia suméria acadiana.
2. A hermenêutica cabalista
Na cabala, o Adão Kadmo corresponde a Árvore da Vida no mundo arquétipo das emanações, Aztiluth, e é uma representação antropomórfica da arquitetura do universo, o conjunto das formas primordiais, o prototipo arquetípico, o molde humano. A Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal é um reflexo invertido da Árvore da Vida. A queda do Éden simboliza, nesse contexto, a passagem do nível de consciência espiritual para um um universo sensorial denso, invertido e simétrico.
Segundo a Cabala, o universo se desenvolve por involução, indo do sutil ao denso: a luz, primeira manifestação, surge da contração do nada espalhado pelo infinito e vai se materializando através de quatro mundos (da Vontade, da Criação, da Formação e dos objetos). Cada mundo tem uma árvore de dez estágios de descida. Shimon Halevi estabelece uma relação diferente da expressa pelo número quarenta, mais complexa e desigual, entre os quatro mundos cabalísticos e as árvores da Vida e do Conhecimento entrelaçadas.
No diagrama da Escada de Jacó, que representa o conjunto dos quatro mundos cabalísticos e dos quatro árvores sephiróticas entrelaçadas, há ainda três pontos específicos sobre os dois Adãos, indicando posições de desenvolvimento da humanidade em seu trajeto de mergulho na matéria e de retorno à luz primordial e ao manifesto.
A primeira posição é a “Porta do Céu”. É a sexta esfera da Árvore da Vida (Thipareh de Aztiluth, o Self cósmico) corresponde ao plexo solar do Adão Kadmo e à primeira esfera (Kether) da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal (a entrada nos reinos inferiores).
A segunda posição é o “Templo de Salomão”. A décima esfera do mundo arquetípico (os pés do corpo espiritual do Adão Kadmo) corresponde à sexta esfera do segundo mundo (Self universal da humanidade) e à primeira esfera do mundo astral (ponto que corresponde ao mito da torre de Babel).
A terceira posição é chamada de “Trono do Reino“. A primeira esfera do mundo material (a glândula pineal) coincide com a sexta do mundo astral (o Self cultural coletivo) e com a décima do terceiro mundo (o corpo emocional). Além disso, a última esfera do mundo astral (o corpo sonhador) coincide com a sexta do mundo material (o Self individual). E esse conjunto simbólico, a passagem do terceiro mundo para realidade material, é que está associado à terceira queda da humanidade, ao evento do dilúvio e ao desequilíbrio elemental desencadeado pelo uso do fogo como tecnologia de guerra.
No modelo de Halevi, Adam Kadmo é andrógino nos dois primeiros mundos, mas, no mundo da formação, Eva é desmembrada de seu lado esquerdo da árvore. E esse segundo Adão, Adam Harishon, representa nossa condição humana atual.
O importante aqui é observar como a Cabala compreende o texto como uma jornada interior de queda e retorno. A passagem pelo mar morto, por exemplo, é um momento em que abandonamos a escravidão interior para buscar pela felicidade (ou a terra prometida). É a Páscoa (ou Pesach) em seu sentido original e também no da Santa Ceia cristã. A última sephirath da árvore é o “fundo do poço”, o ponto de chegada e de retorno, o fim da queda e o início da ascensão.
Enquanto os estudos cabalísticos interpretam eventos históricos ou míticos como símbolos de uma jornada espiritual, em um sentido totalmente oposto estão as análises atuais decorrentes da mitologia suméria, que consideram apenas a leitura literal e se pretendem históricas, objetivas e científicas. Mesmo se considerarmos esse movimento como pseudociência ou como teoria da conspiração, seu valor explicativo não pode ser ignorado.
3. A hermenêutica Annunaki
Para se ter uma ideia da diferença das abordagens, há um poema bastante conhecido sobre a descida da deusa Innana aos infernos. Ela desce por nove ambientes, deixando suas roupas em cada estágio e chega ao final nua, encontrando sua irmã, com a qual se funde em um ritual de morte e renascimento. O poema e seu simbolismo influenciaram a história de Demeter (e dos cultos de Delfos) e a Divina Comédia de Dante. Na releitura de Sitchin, Innnana pegou sua nave e foi para minas de ouro da África do Sul visitar sua irmã.
Nessa perspectiva, o dilúvio, por exemplo, é um acontecimento histórico (e não uma dissociação entre o racional e o afetivo) e Noé é um personagem real (e não uma alegoria de si mesmo). Por outro lado, a narrativa desencantada e desencantante dos analistas da mitologia suméria não atinge apenas a Bíblia, ela também explica os Vedas, as mitologias gregas, nórdicas e egípcias - com várias intercessões com as mitologias maias e incas.
Adama é o primeiro homem, criado em laboratório por inseminação de DNA em símios. Ele é o prototipo do trabalhador braçal e não é muito inteligente, mesmo depois de comer o fruto da árvore do bem e do mal; e de ser expulso do “Edin” - região entre os rios Tigre e Eufrades.
Já Adapa foi um aperfeiçoamento genético (filho de Enki com uma humana), educado por Ningishzida e teve o privilégio de subir aos céus, à morada de Anu. Ele foi um sábio correspondente ao Enoque hebraico, patriarca bíblico, filho de Jarede, pai de Matusalem, avô de Noé, pertencente a sétima geração de Adão. O livro de Enoque faz parte do cânone da bíblia da Etiópia e dos manuscritos do mar morto. Na primeira parte, o protagonista releva sua viagem aos céus; na segunda, a história dos anjos decaídos ou vigilantes, os filhos de Deus que tiveram filhos híbridos com as filhas do homem - fato que levou ao dilúvio em ambas tradições.
Curiosamente, Adapa é um antípoda narrativo de Adama, suas histórias são simétricas e invertidas. Adama é proibido por Elil (deus dos ventos) de comer o fruto da árvore do conhecimento e seduzido a comê-lo por Enki (personificado na serpente). Adama, em consequência, é expulso. Adapa, por sua vez, é levado aos céus por recompensa e lhe é oferecido o "pão da vida" e a "água da vida". Mas, por influência de Enki, Adapa recusa a imortalidade e Anu o envia novamente para a Terra. O primeiro desobedeceu e foi expulso; o segundo obedeceu e perdeu a oportunidade de se tornar eterno.
Ningishzida significa "Senhor da Boa Árvore". Ele desempenha um papel fundamental em ambas as lendas. Em relação a Adama, ajudou Enki e Ninmah na estabilização da forma humana para que ela pudesse se reproduzir de forma autônoma - fato que levou Elil a expulsá-los do convívio com os deuses. Em relação a lenda de Adapa, Ningishzida foi seu tutor. Na tradição hebraica, a cabala foi ensinada a Enoque pelos Anjos. Ningishzida é associado ao Toth egípcio, ao Hermes grego-romano e aos deuses-serpentes aladas das Américas. É frequentemente representado pelo caduceu. Sua representação no Vaso de Gudea (2100 a.C.), onde duas serpentes se entrelaçam em torno de um bastão, lembra a hélice dupla do DNA e a Árvore da Vida.
4. Análise analógica
Paul Ricoeur que o pensamento oscila entre duas estratégias discursivas: a arqueológica, baseada na lembrança do passado; e a teleológica, que sonha com o futuro. Em um primeiro momento, ele vê conflito como uma disputa entre a Hermenêutica da Suspeita e a Hermenêutica da Fé (ou Escuta): Ricoeur identifica três grandes "mestres da suspeita" — Marx, Nietzsche e Freud — que veem o sentido consciente como um disfarce para forças ocultas (econômicas, de poder ou inconscientes). O conflito surge entre essa desconstrução crítica e a hermenêutica que busca restaurar o sentido e a "escuta" do símbolo (do duplo sentido).
Em um segundo momento, Ricoeur enuncia a dialética entre Explicação e Compreensão: busca-se mediar o conflito entre as ciências explicativas (como o estruturalismo ou a linguística, que analisam o sistema de signos) e as ciências da compreensão (que buscam o sentido vivido do sujeito). E finalmente, Ricoeur chega a uma hermenêutica da cultura que interliga o "esforço de existir e o desejo de ser" (estratégia discursiva teleológica) com a compreensão das forças que nos assujeitam (estratégia discursiva arqueológica), em uma auto-compreensão mediada pelo outro e pela narrativa.
Nessa perspectiva, os conflitos discursivos são complementares e só através deles se chega à totalidade, ao contexto ou ao conjunto completo. Assim todo Platão (teleológico) tem seu Aristóteles (arqueológico), todo Freud (arqueológico) tem seu Jung (teleológico), todo Marx (arqueológico) tem seu Weber (teleológico) e assim por diante.
Segundo Riceur, para compreendermos uma estratégia, temos que entender também a outra. E que elas se alternam, assimilando seus contrários, em modelos cada vez mais complexos. O que significa que, após repensarmos os modelos da cabala teleológica à luz das novas descobertas arqueológicas, devemos pensar a nova narrativa histórica a partir de nossas referências simbólicas.
Os dois Adãos, nesse sentido, podem ter sido personagens diferentes, mas o importante é que cumprem funções opostas em relação à árvore: Adama é o Adão descendente e Adapa, o Adão ascendente.
5. Conclusão
Ainda é cedo para analisar o impacto que a descoberta/tradução das tabuletas cuniformes terão na arqueologia e na história. E boa parte da impossibilidade de entender e assimilar essas descobertas ao conhecimento científico se deve a sua adoção apaixonada pela conspiração ufológica, que acredita ter encontrado provas de que somos uma colonização alienígena.
A mitologia suméria acadiana, no entanto, sugere, não apenas que a Torah é uma compilação dos escritos mesopotâmicos, mas também que vários eventos tidos como míticos foram realmente históricos. Ela é uma metanarrativa realista que engloba todas as outras narrativas históricas e mitológicas.
Também é preciso observar que a adesão às ideias de Zecharia Sitchin já ultrapassaram em muito o âmbito de uma teoria da conspiração ufológica ou de uma pseudociência para se tornar um movimento cultural internacional, responsável por várias histórias em quadrinhos, filmes, sites, vídeos e outras narrativas midiáticas, ganhando mais adeptos todos os dias, combatendo evangélicos nas redes sociais.

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