terça-feira, 20 de janeiro de 2026

OS DOIS ADÃOS

OS DOIS ADÃOS

Marcelo Bolshaw Gomes

Resumo: esse texto compara duas formas de pensar o tema mitológico dos dois adãos: a Cabala de Halevi e as análises decorrentes das recentes descobertas na mitologia suméria acadiana.

Palavras-chave: hermenêutica, mitologia comparada, cabala,

 1. Introdução

Se procurarmos pelo tema dos “dois Adãos” na Internet, a primeira referência a aparecer é a de São Paulo. Para ele, o primeiro é o homem primordial que foi expulso do paraíso e o segundo é o Cristo, o Messias; a superação do pecado original e o retorno a condição anterior à queda da humanidade. Essa ideia é retomada por Santo Agostinho, com a Nova Jerusalém como objetivo histórico da humanidade. Porém, Saulo de Tarso e Agostinho de Hipona estão respondendo a uma questão anterior da exegese judaica tradicional, em que há dois adãos segundo diferentes trechos das escrituras: Adam kadmon (o molde humano, a imagem e semelhança de Deus) e Adam Harishon (o primeiro humano, criado no sexto dia, expulso do Éden).

Na mitologia suméria acadiana (de onde o Génesis bíblico foi compilado), há, segundo Zecharia Sitchin, dois personagens diferentes: Adama e Adapa. O primeiro humano primitivo foi concebido em laboratório, pelo enxerto de DNA alienígena em macacos pelos deuses Enki e Ninmah. Enquanto Adapa é um sábio pré-diluviano que viajou até o planeta natal dos “deuses” e retornou à terra. Em sua viagem, Adapa descreve a terra redonda e todos sistema solar inclusive Plutão.

O objetivo aqui é comparar duas hermenêutica diferentes, duas formas de interpretar o tema mitológico dos dois adãos: a Cabala e as análises decorrentes das recentes descobertas na mitologia suméria acadiana.

 

2. A hermenêutica cabalista

Na cabala, o Adão Kadmo corresponde a Árvore da Vida no mundo arquétipo das emanações, Aztiluth, e é uma representação antropomórfica da arquitetura do universo, o conjunto das formas primordiais, o prototipo arquetípico, o molde humano. A Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal é um reflexo invertido da Árvore da Vida. A queda do Éden simboliza, nesse contexto, a passagem do nível de consciência espiritual para um um universo sensorial denso, invertido e simétrico.

Segundo a Cabala, o universo se desenvolve por involução, indo do sutil ao denso: a luz, primeira manifestação, surge da contração do nada espalhado pelo infinito e vai se materializando através de quatro mundos (da Vontade, da Criação, da Formação e dos objetos). Cada mundo tem uma árvore de dez estágios de descida. Shimon Halevi estabelece uma relação diferente da expressa pelo número quarenta, mais complexa e desigual, entre os quatro mundos cabalísticos e as árvores da Vida e do Conhecimento entrelaçadas.

No diagrama da Escada de Jacó, que representa o conjunto dos quatro mundos cabalísticos e dos quatro árvores sephiróticas entrelaçadas, há ainda três pontos específicos sobre os dois Adãos, indicando posições de desenvolvimento da humanidade em seu trajeto de mergulho na matéria  e de retorno à luz primordial e ao manifesto.

A primeira posição é a “Porta do Céu”. É a sexta esfera da Árvore da Vida (Thipareh de Aztiluth, o Self cósmico) corresponde ao plexo solar do Adão Kadmo e à primeira esfera (Kether) da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal (a entrada nos reinos inferiores).

A segunda posição é o “Templo de Salomão”. A décima esfera do mundo arquetípico (os pés do corpo espiritual do Adão Kadmo) corresponde à sexta esfera do segundo mundo (Self universal da humanidade) e à primeira esfera do mundo astral (ponto que corresponde ao mito da torre de Babel).

A terceira posição é chamada de “Trono do Reino“. A primeira esfera do mundo material (a glândula pineal) coincide com a sexta do mundo astral (o Self cultural coletivo) e com a décima do terceiro mundo (o corpo emocional). Além disso, a última esfera do mundo astral (o corpo sonhador) coincide com a sexta do mundo material (o Self individual). E esse conjunto simbólico, a passagem do terceiro mundo para realidade material, é que está associado à terceira queda da humanidade, ao evento do dilúvio e ao desequilíbrio elemental desencadeado pelo uso do fogo como tecnologia de guerra.

No modelo de Halevi, Adam Kadmo é andrógino nos dois primeiros mundos, mas, no mundo da formação, Eva é desmembrada de seu lado esquerdo da árvore. E esse segundo Adão, Adam Harishon, representa nossa condição humana atual.

O importante aqui é observar como a Cabala compreende o texto como uma jornada interior de queda e retorno. A passagem pelo mar morto, por exemplo, é um momento em que abandonamos a escravidão interior para buscar pela felicidade (ou a terra prometida). É a Páscoa (ou Pesach) em seu sentido original e também no da Santa Ceia cristã. A última sephirath da árvore é o “fundo do poço”, o ponto de  chegada e de retorno, o fim da queda e o início da ascensão.

 Enquanto os estudos cabalísticos interpretam eventos históricos ou míticos como símbolos de uma jornada espiritual, em um sentido totalmente oposto estão as análises atuais decorrentes da mitologia suméria, que consideram apenas a leitura literal e se pretendem históricas, objetivas e científicas. Mesmo se considerarmos esse movimento como pseudociência ou como teoria da conspiração, seu valor explicativo não pode ser ignorado.

 

3. A hermenêutica Annunaki

Para se ter uma ideia da diferença das abordagens, há um poema bastante conhecido sobre a descida da deusa Innana aos infernos. Ela desce por nove ambientes, deixando suas roupas em cada estágio e chega ao final nua, encontrando sua irmã, com a qual se funde em um ritual de morte e renascimento. O poema e seu simbolismo influenciaram a história de Demeter (e dos cultos de Delfos) e a Divina Comédia de Dante. Na releitura de Sitchin, Innnana pegou sua nave e foi para minas de ouro da África do Sul visitar sua irmã.

Nessa perspectiva, o  dilúvio, por exemplo, é um acontecimento histórico (e não uma dissociação entre o racional e o afetivo) e Noé é um personagem real (e não uma alegoria de si mesmo). Por outro lado, a narrativa desencantada e desencantante dos analistas da mitologia suméria não atinge apenas a Bíblia, ela também explica os Vedas, as mitologias gregas, nórdicas e egípcias - com várias intercessões com as mitologias maias e incas.

Adama é o primeiro homem, criado em laboratório por inseminação de DNA em símios. Ele é o prototipo do trabalhador braçal e não é muito inteligente, mesmo depois de comer o fruto da árvore do bem e do mal; e de ser expulso do “Edin” - região entre os rios Tigre e Eufrades.

Já Adapa foi um aperfeiçoamento genético (filho de Enki com uma humana), educado por Ningishzida e teve o privilégio de subir aos céus, à morada de Anu. Ele foi  um sábio correspondente ao Enoque hebraico, patriarca bíblico, filho de Jarede, pai de Matusalem, avô de Noé, pertencente a sétima geração de Adão. O livro de Enoque faz parte do cânone da bíblia da Etiópia e dos manuscritos do mar morto. Na primeira parte, o protagonista releva sua viagem aos céus; na segunda, a história dos anjos decaídos ou vigilantes, os filhos de Deus que tiveram filhos híbridos com as filhas do homem - fato que levou ao dilúvio em ambas tradições.  

Curiosamente, Adapa é um antípoda narrativo de Adama, suas histórias são simétricas e invertidas. Adama é proibido por Elil (deus dos ventos) de comer o fruto da árvore do conhecimento e seduzido a comê-lo por Enki (personificado na serpente). Adama, em consequência, é expulso. Adapa, por sua vez, é levado aos céus por recompensa e lhe é oferecido o "pão da vida" e a "água da vida". Mas, por influência de Enki, Adapa recusa a imortalidade e Anu o envia novamente para a Terra. O primeiro desobedeceu e foi expulso; o segundo obedeceu e perdeu a oportunidade de se tornar eterno.

Ningishzida significa "Senhor da Boa Árvore". Ele desempenha um papel fundamental em ambas as lendas. Em relação a Adama, ajudou Enki e Ninmah na estabilização da forma humana para que ela pudesse se reproduzir de forma autônoma - fato que levou Elil a expulsá-los do convívio com os deuses. Em relação a lenda de Adapa, Ningishzida foi seu tutor. Na tradição hebraica, a cabala foi ensinada a Enoque pelos Anjos. Ningishzida é associado ao Toth egípcio, ao Hermes grego-romano e aos deuses-serpentes aladas das Américas. É frequentemente representado pelo caduceu. Sua representação no Vaso de Gudea (2100 a.C.), onde duas serpentes se entrelaçam em torno de um bastão, lembra a hélice dupla do DNA e a Árvore da Vida.

 

4. Análise analógica

Paul Ricoeur que o pensamento oscila entre duas estratégias discursivas: a arqueológica, baseada na lembrança do passado; e a teleológica, que sonha com o futuro. Em um primeiro momento, ele vê conflito como uma disputa entre a Hermenêutica da Suspeita e a Hermenêutica da Fé (ou Escuta): Ricoeur identifica três grandes "mestres da suspeita" — Marx, Nietzsche e Freud — que veem o sentido consciente como um disfarce para forças ocultas (econômicas, de poder ou inconscientes). O conflito surge entre essa desconstrução crítica e a hermenêutica que busca restaurar o sentido e a "escuta" do símbolo (do duplo sentido).

Em um segundo momento, Ricoeur enuncia a dialética entre Explicação e Compreensão: busca-se mediar o conflito entre as ciências explicativas (como o estruturalismo ou a linguística, que analisam o sistema de signos) e as ciências da compreensão (que buscam o sentido vivido do sujeito). E finalmente, Ricoeur chega a uma hermenêutica da cultura que interliga o "esforço de existir e o desejo de ser" (estratégia discursiva teleológica) com a compreensão das forças que nos assujeitam (estratégia discursiva arqueológica), em uma auto-compreensão mediada pelo outro e pela narrativa.

Nessa perspectiva, os conflitos discursivos são complementares e só através deles se chega à totalidade, ao contexto ou ao conjunto completo. Assim todo Platão (teleológico) tem seu Aristóteles (arqueológico), todo Freud (arqueológico) tem seu Jung (teleológico), todo Marx (arqueológico) tem seu Weber (teleológico) e assim por diante.

Segundo Riceur, para compreendermos uma estratégia, temos que entender também a outra. E que elas se alternam, assimilando seus contrários, em modelos cada vez mais complexos. O que significa que, após repensarmos os modelos da cabala teleológica à luz das novas descobertas arqueológicas, devemos pensar a nova narrativa histórica a partir de nossas referências simbólicas.

Os dois Adãos, nesse sentido, podem ter sido personagens diferentes, mas o importante é que cumprem funções opostas em relação à árvore: Adama é o Adão descendente e Adapa, o Adão ascendente.

 

5. Conclusão

Ainda é cedo para analisar o impacto que a descoberta/tradução das tabuletas cuniformes terão na arqueologia e na história. E boa parte da impossibilidade de entender e assimilar essas descobertas ao conhecimento científico se deve a sua adoção apaixonada pela conspiração ufológica, que acredita ter encontrado provas de que somos uma colonização alienígena.

A mitologia suméria acadiana, no entanto, sugere, não apenas que a Torah é uma compilação dos escritos mesopotâmicos, mas também que vários eventos tidos como míticos foram realmente históricos. Ela é uma metanarrativa realista que engloba todas as outras narrativas históricas e mitológicas.

Também é preciso observar que a adesão às ideias de Zecharia Sitchin já ultrapassaram em muito o âmbito de uma teoria da conspiração ufológica ou de uma pseudociência para se tornar um movimento cultural internacional, responsável por várias histórias em quadrinhos, filmes, sites, vídeos e outras narrativas midiáticas, ganhando mais adeptos todos os dias, combatendo evangélicos nas redes sociais. 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

REBOOT OU RESTART?

Para Mircea Eliade, o Ano Novo é um momento de profunda importância simbólica, representando a regeneração do tempo e o retorno ao tempo mítico e primordial da Criação. É um ritual que permite às sociedades arcaicas escapar da linearidade e do "terror da história".

  • Repetição da Cosmogonia: Os rituais de Ano Novo são uma reencenação do mito da criação do mundo (cosmogonia). Ao repetir simbolicamente o ato de criação, o tempo é "reiniciado", retornando ao seu estado original, "puro" e sagrado.
  • Anulação do Tempo Profano: O homem religioso, em contraste com o homem moderno e profano que vive no tempo linear e irreversível da história, busca periodicamente anular o tempo acumulado. O Ano Novo é o momento em que o tempo "velho" é abolido, juntamente com seus pecados e impurezas.
  • Regeneração e Novo Nascimento: A celebração é um esforço para a renovação e um "novo nascimento" anual, que envolve a expulsão simbólica de pecados, doenças e demônios. Tradições de "fogo novo" ou rituais de purificação estão associados a essa ideia de recomeço.
  • O Mito do Eterno Retorno: Esses rituais são centrais para a teoria de Eliade sobre o "mito do eterno retorno" (discutida em sua obra homónima, O Mito do Eterno Retorno), a crença de que, através da prática ritual, é possível retornar ao tempo sagrado e atemporal das origens.
  • Modelos Transcendentais: Para Eliade, as ações humanas ganham significado ao imitar modelos divinos ou arquetípicos, revelados nos mitos. O ritual do Ano Novo permite que os indivíduos se reconectem com essa realidade última e transcendente, em oposição à existência profana e cotidiana.
Em suma, o Ano Novo, na perspectiva de Eliade, não é apenas a virada de um calendário, mas um evento cósmico sagrado que garante a ordem e a renovação da existência, permitindo um recomeço ontológico.

TEXTO: IA GEMINI

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Abaixo a Identidade

Quem controla o passado, controla o futuro.

Quem controla o presente, controla o passado.

A relação entre passado e futuro chamo de NARRATIVA. A relação entre presente e passado chamo de MEMÓRIA. O passado e o futuro se cristalizam na IDENTIDADE, um conjunto de escolhas recorrentes fora do presente. Logo, aquele que controlar a Memória, controlará também a Narrativa. 

E a Identidade apenas aprisiona a Liberdade, vivendo fora do tempo. Uma foto, um fóssil, uma lembrança reduzida de si mesmo. 

domingo, 27 de abril de 2025

Animação indígena

ANIMAÇÃO INDIGENA BRA$ILEIRA

A animação "Awara Nane Putane – Uma História do Cipó" (2013) é um curta-metragem que narra o mito de origem do uso tradicional da ayahuasca segundo a perspectiva da etnia Yawanawá, povo indígena do tronco linguístico Pano que vive às margens do Rio Gregório, no Acre, no coração da floresta amazônica. Com duração de aproximadamente 22 minutos, o filme é inteiramente falado na língua Yawanawá, destacando a autenticidade cultural.

https://youtu.be/8HSssx3btzI?si=RytrbuW2xo6hdysn

"Caminho dos Gigantes" é um curta-metragem de animação brasileiro de 2016, dirigido por Alois Di Leo e produzido pela Sinlogo Animation. Com duração de cerca de 12 minutos, o filme é uma fábula poética que explora a conexão com a natureza e o ciclo da vida. A história acompanha Oquirá, uma menina indígena de seis anos, que, em uma floresta de árvores gigantes, desafia seu destino para compreender o propósito da existência.

https://youtu.be/YE1WeW_QIa8?si=zmtLvzPZc2YE8qet

"O Último Índio" é um curta-metragem de animação brasileiro de 2017, dirigido por Maria Teresa Murer e produzido por Luis Antonio Barcellos, com duração de aproximadamente 12 minutos. Realizado no Rio Grande do Sul, o filme foi premiado como Melhor Filme Infantil no festival Moviescreenpro, em Los Angeles, e participou de diversos festivais internacionais. A animação conta a história de um jovem indígena que cresceu entre colonizadores e esqueceu sua cultura. Um velho pajé o guia para reaprender os costumes, valores e a conexão com a natureza, ensinando-o a ser índio novamente.

https://youtu.be/-ucXTZDDzHA?si=s-qGOx6d5RAniIFL

Pajerama é uma animação brasileira feita pelo diretor Leonardo Cadaval em 2008. É um curta-metragem animado que mistura elementos de cultura indígena, crítica ambiental e surrealismo visual. A história acompanha um indígena que caminha pela floresta, mas acaba se deparando com símbolos da civilização moderna — prédios, carros, poluição, exploração ambiental — e isso vai se misturando de forma surreal e até onírica. É um curta quase sem diálogos, mas com um visual psicodélico e cheio de mensagens implícitas sobre a relação entre natureza e sociedade.

https://youtu.be/BFzv0UhHcS0?si=YXWw3DKD60LTmFKb

Aínbo a guerreira da Amazônia Ainbo: Spirit of the Amazon (2021). Direção: Richard Claus e José Zelada. Origem: Produção peruana-holandesa. O filme conta a história de Aínbo, uma jovem indígena que vive na Amazônia e descobre que sua terra natal está ameaçada por forças externas e sobrenaturais. Ela então embarca em uma jornada junto de dois espíritos protetores — um tapir grandão e um tatu engraçado — para salvar sua aldeia e a floresta. Visualmente, o filme aposta em animação 3D colorida, com cenários exuberantes da floresta, animais típicos da Amazônia e criaturas míticas inspiradas no folclore indígena. A proposta é passar mensagens de preservação ambiental, respeito às tradições e protagonismo feminino.

https://youtu.be/lKEAQNNXSo4?si=k_m-iATTgsySIuRJ

Kalapalo (2015) é um curta-metragem de animação produzido em 2015 pelo diretor Carlos Fausto e animado por André Toral, antropólogo, quadrinista e animador brasileiro. Faz parte de um projeto documental-animado que mistura relato etnográfico com linguagem visual estilizada. O curta faz parte da série Vídeo nas Aldeias, um projeto audiovisual muito importante no Brasil que trabalha a favor da valorização das culturas indígenas, dando protagonismo aos próprios povos na construção e registro de suas histórias. A animação reconta, de maneira tradicional e oral, uma história do povo Kalapalo, um dos grupos indígenas que vivem no Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso.

https://vimeo.com/247672663

TUDO VERDIM, uma constelação de memórias inventadas Ano: 2021. Direção: Nara Normande. É uma animação feita com stop-motion e técnicas mistas, muito delicada, que mistura memória, ficção e identidade regional. A proposta do filme é reconstruir memórias inventadas a partir de recordações afetivas da infância no interior de Alagoas. O visual de Tudo Verdim é bastante artesanal, usando bonecos de massinha e cenários em miniatura, com uma fotografia suave e texturas que remetem a objetos e ambientes nordestinos. É uma obra que trabalha mais com a sensação e a memória emocional do que com um enredo tradicional. A animação cria uma atmosfera nostálgica e onírica, onde o real e o inventado se misturam, como acontece nas nossas lembranças de infância. A diretora explora a ideia de que nossas memórias são, em parte, ficção pessoal — e isso é bonito e válido. A diretora Nara Normande é uma das vozes mais interessantes do cinema de animação brasileiro atual, sempre trabalhando com técnicas analógicas e temas ligados ao Nordeste, à infância e às relações humanas. Ela também dirigiu o premiado curta Guaxuma (2018), que segue uma linha semelhante de animação e tema

https://vimeo.com/171511301

Mundo Munduruku | "A História das Histórias" 2018. Direção: Thiago B. Mendonça. Produção: Brasil — dentro do projeto Mundo Munduruku, uma iniciativa multimídia que inclui documentário, animação e jogo digital, voltados para contar as histórias e lutas do povo Munduruku, que vive na Amazônia. A animação apresenta o mundo a partir da perspectiva indígena Munduruku, contando histórias de origem, mitos e a relação espiritual com a natureza. A ideia é mostrar como os ancestrais contam o nascimento do mundo, dos rios, dos animais e do próprio povo Munduruku. É narrada como uma história contada ao redor da fogueira, reforçando o valor da oralidade indígena e da transmissão dos saberes através de gerações. O visual é baseado nos grafismos indígenas Munduruku e nas cores e elementos da floresta amazônica. A animação mistura técnicas digitais com traços que remetem à pintura corporal e aos grafismos de cestarias e artesanato. A proposta é educativa, cultural e de resistência — valorizando a memória ancestral e alertando para as ameaças que o povo Munduruku enfrenta com o avanço de projetos de barragens e mineração na Amazônia.

https://youtu.be/GD5dGXZpn-g?si=AlhxyK0kKwAX7tfa

Amazônia Sem Garimpo. 2021. Produção: Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com lideranças indígenas e organizações ambientais. Essa animação faz parte de uma campanha maior de conscientização sobre os efeitos devastadores do garimpo ilegal de ouro e outros minerais na floresta amazônica — especialmente sobre os rios, a fauna, a flora e as comunidades indígenas que dependem desses territórios. De forma simples e direta, a animação mostra como o garimpo contamina os rios com mercúrio, destrói a floresta, espalha doenças e ameaça os modos de vida tradicionais. Ao mesmo tempo, exalta a beleza da floresta e a importância de preservá-la para o futuro. A narrativa é protagonizada por personagens indígenas que explicam esses impactos, falando diretamente ao espectador, e finalizam com o apelo: "A Amazônia é nossa casa, e ela não pode morrer".

https://youtu.be/6o_fyNphgMU?si=B46AUSQ0EXYkOQa-

Pela Vida Inteira 2007. Direção: Marcos Magalhães. Produção: TV Escola / MEC. Essa animação faz parte de um projeto chamado Pela Vida Inteira, voltado para a valorização das culturas tradicionais orais brasileiras, especialmente as cantigas, parlendas, trava-línguas, histórias e brinquedos populares. O objetivo era preservar e divulgar esse patrimônio imaterial junto às crianças e educadores. A série reúne pequenas animações de curta duração, cada uma baseada em brincadeiras, músicas ou histórias populares contadas por mestres da cultura oral brasileira. A ideia era transformar essas narrativas em animações coloridas, acessíveis e educativas, transmitidas em programas infantis e utilizados como material didático

https://youtu.be/SRyQvuhNgPA?si=LTQ3G8tGGEWfEYhL

 

VEJA TAMBÉM:

A lenda da noite

https://youtu.be/zXSBsQnDM6k

Gay vī: a voz do barro

https://youtu.be/dFPR4HDd3IQ?si=fcUPgMbb-j2FlXQ2

Ciclo do carbono

https://youtu.be/EM9tfz47UyY?si=OpKCbWQ-R-GnPHW4

A lenda do diamante

https://youtu.be/NtGnqxyP66k?si=KqixWNfO127O9lDc

Mitos Indígenas em Travessia

https://youtu.be/zoaoIY2fCEQ?si=CyyeAEzD9_ZnHeeD

 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

AS FLECHAS DE KRENAK

 


AS FLECHASDE KRENAK

                                                                                                 Marcelo Bolshaw Gomes

terça-feira, 7 de janeiro de 2025