domingo, 25 de janeiro de 2026
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
OS DOIS ADÃOS
OS DOIS ADÃOS
Marcelo Bolshaw Gomes
Resumo: esse texto compara duas formas de pensar o tema mitológico dos dois adãos: a Cabala de Halevi e as análises decorrentes das recentes descobertas na mitologia suméria acadiana.
Palavras-chave: hermenêutica, mitologia comparada, cabala,
1. Introdução
Se procurarmos pelo tema dos “dois Adãos” na Internet, a primeira referência a aparecer é a de São Paulo. Para ele, o primeiro é o homem primordial que foi expulso do paraíso e o segundo é o Cristo, o Messias; a superação do pecado original e o retorno a condição anterior à queda da humanidade. Essa ideia é retomada por Santo Agostinho, com a Nova Jerusalém como objetivo histórico da humanidade. Porém, Saulo de Tarso e Agostinho de Hipona estão respondendo a uma questão anterior da exegese judaica tradicional, em que há dois adãos segundo diferentes trechos das escrituras: Adam kadmon (o molde humano, a imagem e semelhança de Deus) e Adam Harishon (o primeiro humano, criado no sexto dia, expulso do Éden).
Na mitologia suméria acadiana (de onde o Génesis bíblico foi compilado), há, segundo Zecharia Sitchin, dois personagens diferentes: Adama e Adapa. O primeiro humano primitivo foi concebido em laboratório, pelo enxerto de DNA alienígena em macacos pelos deuses Enki e Ninmah. Enquanto Adapa é um sábio pré-diluviano que viajou até o planeta natal dos “deuses” e retornou à terra. Em sua viagem, Adapa descreve a terra redonda e todos sistema solar inclusive Plutão.
O objetivo aqui é comparar duas hermenêutica diferentes, duas formas de interpretar o tema mitológico dos dois adãos: a Cabala e as análises decorrentes das recentes descobertas na mitologia suméria acadiana.
2. A hermenêutica cabalista
Na cabala, o Adão Kadmo corresponde a Árvore da Vida no mundo arquétipo das emanações, Aztiluth, e é uma representação antropomórfica da arquitetura do universo, o conjunto das formas primordiais, o prototipo arquetípico, o molde humano. A Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal é um reflexo invertido da Árvore da Vida. A queda do Éden simboliza, nesse contexto, a passagem do nível de consciência espiritual para um um universo sensorial denso, invertido e simétrico.
Segundo a Cabala, o universo se desenvolve por involução, indo do sutil ao denso: a luz, primeira manifestação, surge da contração do nada espalhado pelo infinito e vai se materializando através de quatro mundos (da Vontade, da Criação, da Formação e dos objetos). Cada mundo tem uma árvore de dez estágios de descida. Shimon Halevi estabelece uma relação diferente da expressa pelo número quarenta, mais complexa e desigual, entre os quatro mundos cabalísticos e as árvores da Vida e do Conhecimento entrelaçadas.
No diagrama da Escada de Jacó, que representa o conjunto dos quatro mundos cabalísticos e dos quatro árvores sephiróticas entrelaçadas, há ainda três pontos específicos sobre os dois Adãos, indicando posições de desenvolvimento da humanidade em seu trajeto de mergulho na matéria e de retorno à luz primordial e ao manifesto.
A primeira posição é a “Porta do Céu”. É a sexta esfera da Árvore da Vida (Thipareh de Aztiluth, o Self cósmico) corresponde ao plexo solar do Adão Kadmo e à primeira esfera (Kether) da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal (a entrada nos reinos inferiores).
A segunda posição é o “Templo de Salomão”. A décima esfera do mundo arquetípico (os pés do corpo espiritual do Adão Kadmo) corresponde à sexta esfera do segundo mundo (Self universal da humanidade) e à primeira esfera do mundo astral (ponto que corresponde ao mito da torre de Babel).
A terceira posição é chamada de “Trono do Reino“. A primeira esfera do mundo material (a glândula pineal) coincide com a sexta do mundo astral (o Self cultural coletivo) e com a décima do terceiro mundo (o corpo emocional). Além disso, a última esfera do mundo astral (o corpo sonhador) coincide com a sexta do mundo material (o Self individual). E esse conjunto simbólico, a passagem do terceiro mundo para realidade material, é que está associado à terceira queda da humanidade, ao evento do dilúvio e ao desequilíbrio elemental desencadeado pelo uso do fogo como tecnologia de guerra.
No modelo de Halevi, Adam Kadmo é andrógino nos dois primeiros mundos, mas, no mundo da formação, Eva é desmembrada de seu lado esquerdo da árvore. E esse segundo Adão, Adam Harishon, representa nossa condição humana atual.
O importante aqui é observar como a Cabala compreende o texto como uma jornada interior de queda e retorno. A passagem pelo mar morto, por exemplo, é um momento em que abandonamos a escravidão interior para buscar pela felicidade (ou a terra prometida). É a Páscoa (ou Pesach) em seu sentido original e também no da Santa Ceia cristã. A última sephirath da árvore é o “fundo do poço”, o ponto de chegada e de retorno, o fim da queda e o início da ascensão.
Enquanto os estudos cabalísticos interpretam eventos históricos ou míticos como símbolos de uma jornada espiritual, em um sentido totalmente oposto estão as análises atuais decorrentes da mitologia suméria, que consideram apenas a leitura literal e se pretendem históricas, objetivas e científicas. Mesmo se considerarmos esse movimento como pseudociência ou como teoria da conspiração, seu valor explicativo não pode ser ignorado.
3. A hermenêutica Annunaki
Para se ter uma ideia da diferença das abordagens, há um poema bastante conhecido sobre a descida da deusa Innana aos infernos. Ela desce por nove ambientes, deixando suas roupas em cada estágio e chega ao final nua, encontrando sua irmã, com a qual se funde em um ritual de morte e renascimento. O poema e seu simbolismo influenciaram a história de Demeter (e dos cultos de Delfos) e a Divina Comédia de Dante. Na releitura de Sitchin, Innnana pegou sua nave e foi para minas de ouro da África do Sul visitar sua irmã.
Nessa perspectiva, o dilúvio, por exemplo, é um acontecimento histórico (e não uma dissociação entre o racional e o afetivo) e Noé é um personagem real (e não uma alegoria de si mesmo). Por outro lado, a narrativa desencantada e desencantante dos analistas da mitologia suméria não atinge apenas a Bíblia, ela também explica os Vedas, as mitologias gregas, nórdicas e egípcias - com várias intercessões com as mitologias maias e incas.
Adama é o primeiro homem, criado em laboratório por inseminação de DNA em símios. Ele é o prototipo do trabalhador braçal e não é muito inteligente, mesmo depois de comer o fruto da árvore do bem e do mal; e de ser expulso do “Edin” - região entre os rios Tigre e Eufrades.
Já Adapa foi um aperfeiçoamento genético (filho de Enki com uma humana), educado por Ningishzida e teve o privilégio de subir aos céus, à morada de Anu. Ele foi um sábio correspondente ao Enoque hebraico, patriarca bíblico, filho de Jarede, pai de Matusalem, avô de Noé, pertencente a sétima geração de Adão. O livro de Enoque faz parte do cânone da bíblia da Etiópia e dos manuscritos do mar morto. Na primeira parte, o protagonista releva sua viagem aos céus; na segunda, a história dos anjos decaídos ou vigilantes, os filhos de Deus que tiveram filhos híbridos com as filhas do homem - fato que levou ao dilúvio em ambas tradições.
Curiosamente, Adapa é um antípoda narrativo de Adama, suas histórias são simétricas e invertidas. Adama é proibido por Elil (deus dos ventos) de comer o fruto da árvore do conhecimento e seduzido a comê-lo por Enki (personificado na serpente). Adama, em consequência, é expulso. Adapa, por sua vez, é levado aos céus por recompensa e lhe é oferecido o "pão da vida" e a "água da vida". Mas, por influência de Enki, Adapa recusa a imortalidade e Anu o envia novamente para a Terra. O primeiro desobedeceu e foi expulso; o segundo obedeceu e perdeu a oportunidade de se tornar eterno.
Ningishzida significa "Senhor da Boa Árvore". Ele desempenha um papel fundamental em ambas as lendas. Em relação a Adama, ajudou Enki e Ninmah na estabilização da forma humana para que ela pudesse se reproduzir de forma autônoma - fato que levou Elil a expulsá-los do convívio com os deuses. Em relação a lenda de Adapa, Ningishzida foi seu tutor. Na tradição hebraica, a cabala foi ensinada a Enoque pelos Anjos. Ningishzida é associado ao Toth egípcio, ao Hermes grego-romano e aos deuses-serpentes aladas das Américas. É frequentemente representado pelo caduceu. Sua representação no Vaso de Gudea (2100 a.C.), onde duas serpentes se entrelaçam em torno de um bastão, lembra a hélice dupla do DNA e a Árvore da Vida.
4. Análise analógica
Paul Ricoeur que o pensamento oscila entre duas estratégias discursivas: a arqueológica, baseada na lembrança do passado; e a teleológica, que sonha com o futuro. Em um primeiro momento, ele vê conflito como uma disputa entre a Hermenêutica da Suspeita e a Hermenêutica da Fé (ou Escuta): Ricoeur identifica três grandes "mestres da suspeita" — Marx, Nietzsche e Freud — que veem o sentido consciente como um disfarce para forças ocultas (econômicas, de poder ou inconscientes). O conflito surge entre essa desconstrução crítica e a hermenêutica que busca restaurar o sentido e a "escuta" do símbolo (do duplo sentido).
Em um segundo momento, Ricoeur enuncia a dialética entre Explicação e Compreensão: busca-se mediar o conflito entre as ciências explicativas (como o estruturalismo ou a linguística, que analisam o sistema de signos) e as ciências da compreensão (que buscam o sentido vivido do sujeito). E finalmente, Ricoeur chega a uma hermenêutica da cultura que interliga o "esforço de existir e o desejo de ser" (estratégia discursiva teleológica) com a compreensão das forças que nos assujeitam (estratégia discursiva arqueológica), em uma auto-compreensão mediada pelo outro e pela narrativa.
Nessa perspectiva, os conflitos discursivos são complementares e só através deles se chega à totalidade, ao contexto ou ao conjunto completo. Assim todo Platão (teleológico) tem seu Aristóteles (arqueológico), todo Freud (arqueológico) tem seu Jung (teleológico), todo Marx (arqueológico) tem seu Weber (teleológico) e assim por diante.
Segundo Riceur, para compreendermos uma estratégia, temos que entender também a outra. E que elas se alternam, assimilando seus contrários, em modelos cada vez mais complexos. O que significa que, após repensarmos os modelos da cabala teleológica à luz das novas descobertas arqueológicas, devemos pensar a nova narrativa histórica a partir de nossas referências simbólicas.
Os dois Adãos, nesse sentido, podem ter sido personagens diferentes, mas o importante é que cumprem funções opostas em relação à árvore: Adama é o Adão descendente e Adapa, o Adão ascendente.
5. Conclusão
Ainda é cedo para analisar o impacto que a descoberta/tradução das tabuletas cuniformes terão na arqueologia e na história. E boa parte da impossibilidade de entender e assimilar essas descobertas ao conhecimento científico se deve a sua adoção apaixonada pela conspiração ufológica, que acredita ter encontrado provas de que somos uma colonização alienígena.
A mitologia suméria acadiana, no entanto, sugere, não apenas que a Torah é uma compilação dos escritos mesopotâmicos, mas também que vários eventos tidos como míticos foram realmente históricos. Ela é uma metanarrativa realista que engloba todas as outras narrativas históricas e mitológicas.
Também é preciso observar que a adesão às ideias de Zecharia Sitchin já ultrapassaram em muito o âmbito de uma teoria da conspiração ufológica ou de uma pseudociência para se tornar um movimento cultural internacional, responsável por várias histórias em quadrinhos, filmes, sites, vídeos e outras narrativas midiáticas, ganhando mais adeptos todos os dias, combatendo evangélicos nas redes sociais.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
REBOOT OU RESTART?
Para Mircea Eliade, o Ano Novo é um momento de profunda importância simbólica, representando a regeneração do tempo e o retorno ao tempo mítico e primordial da Criação. É um ritual que permite às sociedades arcaicas escapar da linearidade e do "terror da história".
- Repetição da Cosmogonia: Os rituais de Ano Novo são uma reencenação do mito da criação do mundo (cosmogonia). Ao repetir simbolicamente o ato de criação, o tempo é "reiniciado", retornando ao seu estado original, "puro" e sagrado.
- Anulação do Tempo Profano: O homem religioso, em contraste com o homem moderno e profano que vive no tempo linear e irreversível da história, busca periodicamente anular o tempo acumulado. O Ano Novo é o momento em que o tempo "velho" é abolido, juntamente com seus pecados e impurezas.
- Regeneração e Novo Nascimento: A celebração é um esforço para a renovação e um "novo nascimento" anual, que envolve a expulsão simbólica de pecados, doenças e demônios. Tradições de "fogo novo" ou rituais de purificação estão associados a essa ideia de recomeço.
- O Mito do Eterno Retorno: Esses rituais são centrais para a teoria de Eliade sobre o "mito do eterno retorno" (discutida em sua obra homónima, O Mito do Eterno Retorno), a crença de que, através da prática ritual, é possível retornar ao tempo sagrado e atemporal das origens.
- Modelos Transcendentais: Para Eliade, as ações humanas ganham significado ao imitar modelos divinos ou arquetípicos, revelados nos mitos. O ritual do Ano Novo permite que os indivíduos se reconectem com essa realidade última e transcendente, em oposição à existência profana e cotidiana.
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
quarta-feira, 29 de outubro de 2025
Abaixo a Identidade
Quem controla o presente, controla o passado.
A relação entre passado e futuro chamo de NARRATIVA. A relação entre presente e passado chamo de MEMÓRIA. O passado e o futuro se cristalizam na IDENTIDADE, um conjunto de escolhas recorrentes fora do presente. Logo, aquele que controlar a Memória, controlará também a Narrativa.
E a Identidade apenas aprisiona a Liberdade, vivendo fora do tempo. Uma foto, um fóssil, uma lembrança reduzida de si mesmo.
domingo, 27 de abril de 2025
Animação indígena
ANIMAÇÃO
INDIGENA BRA$ILEIRA
A animação "Awara Nane
Putane – Uma História do Cipó" (2013) é um curta-metragem que narra o
mito de origem do uso tradicional da ayahuasca segundo a perspectiva da etnia
Yawanawá, povo indígena do tronco linguístico Pano que vive às margens do Rio
Gregório, no Acre, no coração da floresta amazônica. Com duração de
aproximadamente 22 minutos, o filme é inteiramente falado na língua Yawanawá,
destacando a autenticidade cultural.
https://youtu.be/8HSssx3btzI?si=RytrbuW2xo6hdysn
"Caminho dos Gigantes" é um curta-metragem de animação brasileiro de 2016,
dirigido por Alois Di Leo e produzido pela Sinlogo Animation. Com duração de
cerca de 12 minutos, o filme é uma fábula poética que explora a conexão com a
natureza e o ciclo da vida. A história acompanha Oquirá, uma menina indígena de
seis anos, que, em uma floresta de árvores gigantes, desafia seu destino para
compreender o propósito da existência.
https://youtu.be/YE1WeW_QIa8?si=zmtLvzPZc2YE8qet
"O Último Índio" é um curta-metragem de animação brasileiro de 2017,
dirigido por Maria Teresa Murer e produzido por Luis Antonio Barcellos, com
duração de aproximadamente 12 minutos. Realizado no Rio Grande do Sul, o filme
foi premiado como Melhor Filme Infantil no festival Moviescreenpro, em Los
Angeles, e participou de diversos festivais internacionais. A animação conta a
história de um jovem indígena que cresceu entre colonizadores e esqueceu sua
cultura. Um velho pajé o guia para reaprender os costumes, valores e a conexão
com a natureza, ensinando-o a ser índio novamente.
https://youtu.be/-ucXTZDDzHA?si=s-qGOx6d5RAniIFL
Pajerama é uma animação brasileira feita pelo diretor Leonardo
Cadaval em 2008. É um curta-metragem animado que mistura elementos de cultura
indígena, crítica ambiental e surrealismo visual. A história acompanha um
indígena que caminha pela floresta, mas acaba se deparando com símbolos da
civilização moderna — prédios, carros, poluição, exploração ambiental — e isso
vai se misturando de forma surreal e até onírica. É um curta quase sem
diálogos, mas com um visual psicodélico e cheio de mensagens implícitas sobre a
relação entre natureza e sociedade.
https://youtu.be/BFzv0UhHcS0?si=YXWw3DKD60LTmFKb
Aínbo a guerreira da Amazônia Ainbo:
Spirit of the Amazon (2021). Direção:
Richard Claus e José Zelada. Origem: Produção peruana-holandesa. O filme conta
a história de Aínbo, uma jovem indígena que vive na Amazônia e descobre que sua
terra natal está ameaçada por forças externas e sobrenaturais. Ela então
embarca em uma jornada junto de dois espíritos protetores — um tapir grandão e
um tatu engraçado — para salvar sua aldeia e a floresta. Visualmente, o filme
aposta em animação 3D colorida, com cenários exuberantes da floresta, animais
típicos da Amazônia e criaturas míticas inspiradas no folclore indígena. A
proposta é passar mensagens de preservação ambiental, respeito às tradições e
protagonismo feminino.
https://youtu.be/lKEAQNNXSo4?si=k_m-iATTgsySIuRJ
Kalapalo (2015) é um curta-metragem de animação produzido em 2015 pelo
diretor Carlos Fausto e animado por André Toral, antropólogo, quadrinista e
animador brasileiro. Faz parte de um projeto documental-animado que mistura
relato etnográfico com linguagem visual estilizada. O curta faz parte da série
Vídeo nas Aldeias, um projeto audiovisual muito importante no Brasil que
trabalha a favor da valorização das culturas indígenas, dando protagonismo aos
próprios povos na construção e registro de suas histórias. A animação reconta,
de maneira tradicional e oral, uma história do povo Kalapalo, um dos grupos
indígenas que vivem no Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso.
TUDO VERDIM, uma constelação de
memórias inventadas Ano: 2021. Direção: Nara Normande. É uma animação feita
com stop-motion e técnicas mistas, muito delicada, que mistura memória, ficção
e identidade regional. A proposta do filme é reconstruir memórias inventadas a
partir de recordações afetivas da infância no interior de Alagoas. O visual de
Tudo Verdim é bastante artesanal, usando bonecos de massinha e cenários em
miniatura, com uma fotografia suave e texturas que remetem a objetos e
ambientes nordestinos. É uma obra que trabalha mais com a sensação e a memória
emocional do que com um enredo tradicional. A animação cria uma atmosfera
nostálgica e onírica, onde o real e o inventado se misturam, como acontece nas
nossas lembranças de infância. A diretora explora a ideia de que nossas
memórias são, em parte, ficção pessoal — e isso é bonito e válido. A diretora
Nara Normande é uma das vozes mais interessantes do cinema de animação
brasileiro atual, sempre trabalhando com técnicas analógicas e temas ligados ao
Nordeste, à infância e às relações humanas. Ela também dirigiu o premiado curta
Guaxuma (2018), que segue uma linha semelhante de animação e tema
Mundo Munduruku | "A
História das Histórias" 2018. Direção: Thiago B. Mendonça. Produção:
Brasil — dentro do projeto Mundo Munduruku, uma iniciativa multimídia que
inclui documentário, animação e jogo digital, voltados para contar as histórias
e lutas do povo Munduruku, que vive na Amazônia. A animação apresenta o mundo a
partir da perspectiva indígena Munduruku, contando histórias de origem, mitos e
a relação espiritual com a natureza. A ideia é mostrar como os ancestrais
contam o nascimento do mundo, dos rios, dos animais e do próprio povo
Munduruku. É narrada como uma história contada ao redor da fogueira, reforçando
o valor da oralidade indígena e da transmissão dos saberes através de gerações.
O visual é baseado nos grafismos indígenas Munduruku e nas cores e elementos da
floresta amazônica. A animação mistura técnicas digitais com traços que remetem
à pintura corporal e aos grafismos de cestarias e artesanato. A proposta é
educativa, cultural e de resistência — valorizando a memória ancestral e
alertando para as ameaças que o povo Munduruku enfrenta com o avanço de
projetos de barragens e mineração na Amazônia.
https://youtu.be/GD5dGXZpn-g?si=AlhxyK0kKwAX7tfa
Amazônia Sem
Garimpo. 2021. Produção: Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com
lideranças indígenas e organizações ambientais. Essa animação faz parte de uma
campanha maior de conscientização sobre os efeitos devastadores do garimpo
ilegal de ouro e outros minerais na floresta amazônica — especialmente sobre os
rios, a fauna, a flora e as comunidades indígenas que dependem desses
territórios. De forma simples e direta, a animação mostra como o garimpo
contamina os rios com mercúrio, destrói a floresta, espalha doenças e ameaça os
modos de vida tradicionais. Ao mesmo tempo, exalta a beleza da floresta e a
importância de preservá-la para o futuro. A narrativa é protagonizada por
personagens indígenas que explicam esses impactos, falando diretamente ao
espectador, e finalizam com o apelo: "A Amazônia é nossa casa, e ela não
pode morrer".
https://youtu.be/6o_fyNphgMU?si=B46AUSQ0EXYkOQa-
Pela Vida Inteira 2007. Direção:
Marcos Magalhães. Produção: TV Escola / MEC. Essa animação faz parte de um
projeto chamado Pela Vida Inteira, voltado para a valorização das culturas
tradicionais orais brasileiras, especialmente as cantigas, parlendas,
trava-línguas, histórias e brinquedos populares. O objetivo era preservar e divulgar
esse patrimônio imaterial junto às crianças e educadores. A série reúne
pequenas animações de curta duração, cada uma baseada em brincadeiras, músicas
ou histórias populares contadas por mestres da cultura oral brasileira. A ideia
era transformar essas narrativas em animações coloridas, acessíveis e
educativas, transmitidas em programas infantis e utilizados como material
didático
https://youtu.be/SRyQvuhNgPA?si=LTQ3G8tGGEWfEYhL
VEJA TAMBÉM:
A lenda da noite
Gay vī: a voz do barro
https://youtu.be/dFPR4HDd3IQ?si=fcUPgMbb-j2FlXQ2
Ciclo do carbono
https://youtu.be/EM9tfz47UyY?si=OpKCbWQ-R-GnPHW4
A lenda do diamante
https://youtu.be/NtGnqxyP66k?si=KqixWNfO127O9lDc
Mitos Indígenas em Travessia
https://youtu.be/zoaoIY2fCEQ?si=CyyeAEzD9_ZnHeeD
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025
terça-feira, 7 de janeiro de 2025
quarta-feira, 16 de outubro de 2024
sexta-feira, 7 de junho de 2024
quinta-feira, 9 de maio de 2024
jurema rainha
A cidade é sua e a chave é minha.
Jurema Preta, Jurema Guerreira
Seus galhos defendem A Flor Verdadeira.
Um olho d'água coroado de Espinhos
Fecha minhas portas, Limpa meus caminhos.
A chuva cai e renasço novamente.
Folha seca cai e brota sua semente:
Sagrada morada, Bem na sua mente.
terça-feira, 16 de abril de 2024
quinta-feira, 11 de abril de 2024
terça-feira, 27 de fevereiro de 2024
Zaratustra
Conta que há muitos anos, em uma pequena vila onde hoje é o Irã, nasceu um menino destinado a trazer a alegria ao mundo. Por isso, ele quando nasceu não chorou, ao contrário, riu.
O xamã daquela tribo, temendo o final de seu domínio, disse aterrorizando os pais da criança: "Estamos em um mundo cruel e violento. De que esta criança está rindo? Ele está zombando de nossa dor, está debochando de nosso sofrimento".
Mandou então jogar o recém-nascido em uma fogueira, para que morresse consciente das mazelas do mundo. Mas, sem que ninguém conseguisse explicar, a criança sobreviveu sem nenhuma queimadura, brincando entre as brasas e as cinzas.
O feiticeiro exclamou: "Só pode ser uma criança demoníaca! Vamos deixá-la no caminho do gado para que seja pisoteada pela manada!" E assim fizeram, mas nenhum animal atropelou o menino, que ficou amigo dos animais.
"Vamos entregá-lo para loba que vive na caverna. Ela dará a essa criança seu destino: ser alimento de seus filhotes" - proclamou mais uma vez o xamã. Mas, também desta vez, a criança com sua mansidão e amor, conquistou os favores da loba, que a levou de volta aos braços de sua mãe, aflita com as provas impostas ao seu filho.
Quando procuraram o feiticeiro para que ele admitisse seu erro, não o encontraram. Aliás, nunca mais ele foi visto, desapareceu envergonhado de suas maldades.
E o pequeno Zaratustra cresceu e se tornou o avatar do Zoroastrismo e dos ensinamentos de seu livro sagrado, Zenda Avesta.
terça-feira, 26 de dezembro de 2023
A voz sem verbo
Vim da Luz de Deus
E a Ela estou retornando ...
Vi a voz sem verbo
e Ela está me chamando …
O Um de Todo em mim
me diz quem realmente sou
flor deste jardim
de passagem aqui Eu estou.
Pacificando os pensamentos
A alma reflete as estrelas
girando todo firmamento
em dança divina centelhas
Vivo vida a celebrar
A grandeza deste firmamento
Deixo Allah me leva lá
feliz mesmo com sofrimento
Dou Adeus aos meus amigos
Lembrando que nunca fui só
Volto a luz e levo amor
E o resto retorna ao pó.
Áudio
sábado, 16 de dezembro de 2023
Vipassana
O grande tesouro de sabedoria e espiritualidade do Budismo é a meditação Vipassana. A técnica foi elaborada por Sidarta Gautama, o 1º Buda, há 2.600 anos. Como foi a primeira meditação, ela está na raiz tanto das meditações zen quanto das meditações visuais e mântricas das escolas tibetanas.
Vipassana significa “insight”, ver as coisas como elas realmente são. É a observação da experiência da percepção direta. E o princípio subjacente é a investigação e entendimento dos fenômenos manifestados nos cinco agregados: o apego à forma física, às sensações ou sentimentos, à percepção, às formações mentais e à consciência. Ou seja: tornarmo-nos conscientes das sensações do corpo; dos afetos individuais; da sintaxe da percepção; dos padrões coletivos de cognição do pensamento; e, finalmente, conscientes de nossa própria consciência, da consciência do contexto de enunciação da própria consciência. A técnica tradicional é dividida em duas etapas: Anapana, em que apenas concentra atenção em um ponto específico do corpo (o mais comum é a entrada e a saída de ar das narinas); e Vipassana propriamente dita, que consiste em movimentar a atenção pelo corpo no sentido ascendendo e descendente, como um scanner. Não há mantras, visualizações ou respiração específica, mas sim a observação da respiração (esteja ela profunda ou rápida).
A meditação Vipassana foca a interconexão entre mente e corpo, a qual pode ser experimentada diretamente por meio da atenção disciplinada às sensações físicas. Essa técnica de meditação, utilizada por dez dias consecutivos dentro do nobre silêncio e de uma dieta vegetariana de baixa caloria, leva a observação da mente pela consciência como algo objetivo, externo à percepção.
Em outras técnicas, há uma expansão da consciência que extrapola os limites do ego, mas essa permanece dentro da mente. A consciência em estado de percepção ampliada acessa níveis profundos do inconsciente, mas permanece dentro dos limites da estrutura mental. O que acontece com a técnica Vipassana é diferente: através da focalização da atenção na respiração (fronteira sensorial entre o intencional e o involuntário), acessam-se os padrões profundos do inconsciente, vistos pelo lado de fora.
É a fala que organiza a memória com sua narrativa. Com ‘o nobre silêncio’, há um aumento da memória e sua reorganização fora dos padrões discursivos. Não apenas lembramo-nos de mais coisas, como também a forma como nos recordamos dos eventos não é tão ego-centrada. Com silêncio, a memória não funciona mais por lembranças discursivas, mas sim por recordações visuais.
As sensações de dor e sofrimento emocional devido às restrições perceptivas do enorme esforço cognitivo voltado para atenção sobre o corpo e a respiração fazem emergir desejos de aversão e as sensações de bem estar corporal fazem emergir desejos de cobiça (não só sexuais, mas de repetição de situações prazerosas).
Quando temos experiências ruins, desejamos não repeti-las e surge a aversão; quando temos experiências boas, desejamos repeti-las e então surge a cobiça. Normalmente, em outras técnicas ou terapias com foco sensorial, esses desejos de repetir experiências prazerosas são vistos como positivos, mas quando vistos objetivamente na Vipassana, eles se mostram obsessões neuróticas tão nefastas quanto às aversões inconscientes que nos impedem de aceitar a vida.
Aliás, esse é um ponto importante em dois aspectos. Primeiro: o Budismo prescreve a ‘equanimidade’ ou a capacidade de entender o lado positivo das experiências ruins e o lado negativo das experiências boas, mas esse equilíbrio só pode ser desenvolvido na prática através da técnica da Vipassana.
A prática da meditação Vipassana traz toda a hermenêutica budista embutida em si. A ideia de não-reação, por exemplo, perpassa toda a doutrina budista; e na Vipassana não se deve reagir nem às dores, nem às outras sensações, sentimentos ou percepções – apenas observar.
A meditação treina na prática seu praticante na noção aceitação budista. E o mais importante: o Budismo é a única hermenêutica religiosa que compreende (ou que deseja compreender) criticamente as experiências psicológicas positivas e, principalmente, que prescreve a suspeita em relação à transcendência.
terça-feira, 17 de outubro de 2023
Tarô para si mesmo
A pergunta: COMO LER O TAROT PARA MIM?
quinta-feira, 10 de agosto de 2023
findo tempo









